16/06/11

TERMINUS 254: MARAVILHAS DE ANDAR EM TRANSPORTES PÚBLICOS

Sempre que viajo em transportes públicos tenho por hábito ouvir conversas alheias. Não é que eu goste, ou que eu queira, mas as pessoas falam tão alto que não tenho outro remédio senão ouvir. No outro dia vinham duas mulheres à minha frente a conversar. O assunto era o seguinte:
As pessoas hoje em dia falam tanto da vida umas das outras...”
Sim, são todas umas cuscas. Até fazem impressão.”
Até aqui nada de especial, estavam-me a atrapalhar a leitura, mas isso não era nada que não fosse normal. Até que houve uma delas que disse uma coisa que mudou por completo o rumo da conversa; algo que me ficou na memória. Ela disse e eu cito na íntegra:
Eu acho que isto devia estar dividido por secções. Devia haver uma secção para as pessoas que gostam de conversar e outra para as pessoas que gostam de ler.”
E a outra respondeu:
Sim, tem toda a razão.”
E eu disse “Então não seria mau pensado porem-se a andar daqui para fora.”

Não acharam piada, chamaram-me mal-educado e foram-se embora.

Ganhei’, pensei eu.

Mas estas não são as piores. As piores são aquelas que vão quietas, com o telemóvel nas mãos, sempre a olhar para o telemóvel. Depois recebem um toque. E ficam a olhar feitas parvas. Aquela porcaria a tocar e elas a olhar. Dá vontade dum gajo levantar-se e gritar “Atende essa porcaria!”

E depois quando atendem, das duas uma, ou é engano e voltam ao mesmo ou ficam a conversar a viagem toda. É nessas alturas que me apetece partir a janela e saltar dali pra fora.
Raios parta os toques. Porque é que quando ouvimos o telemóvel tocar nunca atendemos à primeira? Nunca sabemos se aquele toque, o mais estúpido que já se ouviu, se é mesmo o nosso.
O toque é igual ao meu, mas será que é mesmo?”
E quando finalmente resolvemos atender, a pessoa ao nosso lado atende. É frustrante. Porque mais uma vez vamos ter que percorrer a lista de toques do princípio ao fim em busca de um toque que ninguém use. Acho que é por isso que existem tantos toques estúpidos hoje em dia.
Mas isto era antes. Agora temos algo muito pior: música. Música em transportes públicos. Ou música em sítios públicos em geral. Mas agora fiquemos pelos transportes.
Quem anda neles, sabe do que eu estou a falar. Aquela musiquinha parva que não se percebe nada. Só a escolha é cinco estrelas e depois vem a qualidade do som. Lembram-se quando costumávamos ver os velhos na rua a ouvir o relato da bola? Aquele som todo fanhoso que não se percebia nada? A música nos transportes públicos é isto: uma estação mal sintonizada num aparelho de rádio desses antigos e a coluna apontada para um megafone ligado ao amplificador. Bela ideia, sim senhor. Não chegava ter de ouvir conversas parvas à nossa volta. Agora é mais esta.
E daqui partimos para música nos telemóveis. Quero dizer isto: EU NÃO QUERO OUVIR A VOSSA MÚSICA QUANDO VOU NA RUA! E não é por não gostar da música em si. É porque não se percebe nada. Eu gosto de música. E se há uma coisa em que eu acredito é que a Soraia Chaves só de pantufinhas fica um mimo. A outra é que música é para se ouvir com boa qualidade. Não é assim.
A minha vontade era pegar no sujeito que resolveu juntar as duas coisas, telemóveis e música, e enfiar-lhe um piano de cauda e um telefone dos antigos pelo esfíncter adentro.
Eh pá! Isso não que suja o telefone todo!”
Pois é! Ainda por cima há pessoas com toques muito giros.”
Deve haver. Eu próprio já ouvi. Mas são tão poucas! E cada vez menos...
Onde é que andam os toques simples? O que foi que lhes aconteceu? É raro nos dias de hoje o toque de telemóvel que não é uma música. São as boomboxs do século XXI. Portanto, temos a rádio do velho sintonizada na Renascença, dezenas de pessoas a ouvir música do telemóvel e... E querem que o pessoal ande mais de transportes públicos? Deve ser...

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