18/06/11

TERMINUS 256: O PORQUÊ DO EMPRÉSTIMO AOS BANCOS

Quando se discutiu o último Orçamento de Estado, houve quem achasse suspeito os encontros que os presidentes dos principais bancos privados portugueses tiveram, à vez, com José Sócrates e Passos Coelho. Quando ainda não falava da vinda do FMI para Portugal, muitos questionaram as tomadas de posição dos senhores dos bancos de não terem capacidade de ajudar o Estado português, após terem anunciado um forte crescimento dos seus lucros. Quando se negociava o acordo com a troika e estes senhores foram beneficiados com 12 mil dos 78 mil milhões de euros de empréstimo, muitos questionaram a justiça de tal medida. Durante muito tempo, estas questões têm permanecido sem resposta. Até hoje.
Consideremos, em primeiro lugar, o porquê do empréstimo aos bancos. A lógica dita que, para emprestarem dinheiro, os bancos precisam de o ter primeiro. Ora, como os lucros dos principais bancos portugueses cresceram muito no último ano, é mais que evidente a falta de capital financeiro de que dispõem. Portanto, como deixaram de ganhar alguns milhões para passar a ganhar muitos milhões, as troikas acharam que era preciso ajudar estas carentes entidades empresariais e resolveram dar-lhes alguns milhõezitos para se governarem.
Atendido o problema da falta de dinheiro dos bancos portugueses, estes ficaram em condições de fazer empréstimos a quem pedisse. O problema é que o banco para fazer um empréstimo precisa de ter garantias mínimas de retorno; caso contrário, não é um empréstimo, é uma oferta. Uma vez que se prevê o congelamento do salário mínimo, o aumento do IVA, o aumento do custo de vida, a facilitação do despedimento e o crescimento do desemprego, tenho algumas dúvidas que sobre muita gente com capacidade financeira de contrair um empréstimo. O que acontecerá a esse dinheiro então?
Não existem dúvidas de quem vai pagar os juros do empréstimo feito pela troika, seja da parte que foi para o Estado, seja da parte que foi para os bancos: é o mesmo otário que vai pagar ainda mais juros caso consiga contrair um empréstimo bancário. Também não existem dúvidas quanto à injustiça desta medida, bem como à necessidade de aplicação da mesma.
Segundo notícias publicadas esta semana, o Banco de Portugal emitiu uma nota de recomendação para que os bancos passassem a carregar os multibancos com menos dinheiro. Diz a nota que é para combater os constantes assaltos, mas não é só disso que se trata.
Já estive muitas vezes na fila para levantar dinheiro no multibanco e ter no início da fila uma daquelas bestas que leva para lá uma repartição de pagamentos. Sou daqueles retrógados que acha que uma hora a pôr cartão, marcar código, fazer operação, verificar talão, verificar saldo, verificar movimentos de conta, trocar cartão, marcar código e repetir operação durante mais de uma hora é um bocadinho demasiado. Por vezes, passa-me pela cabeça a ideia de abandonar a fila e me dirigir ao balcão de atendimento que está vazio para efectuar aí o levantamento. Porém, antes de fazer isso, resolvo fazer uma trepanação e a ideia deixa de fazer sentido. Pagar para levantar dinheiro? Não me parece.
Menos dinheiro nos multibancos significa que as caixas vão ficar vazias mais depressa. Significa também que haverá quem opte por fazer levantamentos mais avultados e outros por ter a carteira a criar bicho. Os primeiros serão fáceis de identificar, uma vez que terão um ar desconfiado de tudo e de todos; os segundos, em maior número, correrão menos riscos de serem assaltados. Houve quem falasse que o empréstimo aos bancos era uma vergonhosa rapinagem quando, na verdade, era uma eficaz medida de combate ao crime.
As pessoas andarão com (ainda) menos dinheiro no bolso e não haverá razão para serem assaltadas. Os bancos terão dinheiro ao seu dispor para investir nas empresas de que são accionistas e assim aumentar um pouco mais os seus lucros, de modo a que na eventualidade dum próximo empréstimo internacional estejam em condições de beneficiar de mais um pouco da caridade internacional.

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