24/06/11

TERMINUS 258: PELA REVISÃO DOS DITADOS POPULARES

O mal de Portugal são os ditados populares. Influenciados por esses saberes antigos, planeamos e agimos de forma errada. Quão diferentes seriam as nossas vidas, o nosso país, se em vez de ditados como Devagar se vai ao longe ou A pressa é inimiga da perfeição, tivéssemos, por exemplo, Quem chega no fim come restos ou Vem devagar e depois queixa-te que és o último?
Vem isto a propósito do Cartão do Cidadão. De acordo com testes realizados na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, chegou-se à conclusão que esse moderno e prático documento não confere ao seu titular a segurança que é exigida a um documento do género. Não se trata de duplicar o cartão fisicamente (essa parte, até ver, está salvaguardada), trata-se da possibilidade de clonar os seus dados por via electrónica.
Ou seja. O Cartão do Cidadão dispõe de dois tipos de informação: a que está registada no plástico, como o nome, data de nascimento, etc. e a que está registada no chip, cuja leitura só pode ser feita através de um aparelho de custo acessível que todos os serviços dispõem. O portador do Cartão do Cidadão pode ainda aceder aos sites dos organismos públicos e tratar do que tiver a tratar a partir de casa.
Qual é o problema? Parece que os sites estão protegidos e o cartão também, mas se o computador estiver vulnerável a viroses, aí é que é o bom e o bonito. Se o nosso Magalhães não tiver as vacinas em dia, corremos o risco de alguém copiar o nosso PIN ou a nossa assinatura electrónica e fazer-se passar por nós. Pessoalmente, não me preocupo muito com isso, uma vez que há dias em que eu próprio não quero ser eu e não estou a ver qual é o fétiche de alguém se passar por mim. No entanto, há muita gente em risco e é preciso encontrar uma forma de proteger melhor os dados registados no chip.
Francisco Rente, o investigador da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra que apurou estas falhas de segurança, diz que já alertou a Agência para a Modernização Administrativa, durante um seminário técnico sobre o cartão do cidadão. O alerta foi dado em 2007, estamos em 2011, e nada foi feito para resolver o problema.
Concordo com Francisco Rente em tudo o que ele apontou sobre esta matéria, mas discordo dele num aspecto em particular. Diz ele que é necessário e urgente resolver este problema. Necessário sim, urgente discordo. Estamos a falar dum problema que afecta muitas pessoas e muitas famílias; é para fazer com calma, não é às três pancadas. Quatro anos mal chega para fazer um estudo sobre a matéria, analisar os dados, efectuar um inquérito para apurar responsabilidades e traçar uma metodologia que permita verificar as incompatibilidades existentes nas diversas plataformas de acesso, quanto mais fazer alguma coisa que se veja.
Porque é que eu digo que o mal de Portugal são os ditados populares? É que tanto eu, como eles, insistimos no prolongamento do problema. A diferença é que eu faço isso como recurso e eles fazem-no porque é isso que determinam. Fosse a tradição outra, fossem os ditados outros, e não só estaria Francisco Rente mais compatível com os padrões de estar e agir do português, como já estaria o problema resolvido.

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