30/06/11

TERMINUS 260: TERCEIRA IDADE DE TERCEIRA

Um estudo concluiu que a generalidade da população prefere ser trancada numa jaula com gralhas do que andar num autocarro cheio de velhas eufóricas, acabadinhas de sair dum concerto do Marco Paulo. Não percebo a viabilidade deste estudo. Qual é a diferença entre uma situação e outra? Tirando o facto das gralhas serem bichos mais sossegados, não sei.
Para mim, os velhos que viajam no autocarro, no banco atrás de nós, são a nossa voz da consciência. Quando os oiço fico sempre consciente que ainda falta muito para o fim da viagem.
O pior é que um dia eu também me vou sentar ali. Eu vou-me sentar no banco de trás. Eu vou ser a voz da consciência de alguém. É o momento pelo qual todos ansiamos: a reforma! Ah! Que ansiedade! Deixamos de trabalhar e podemos gozar os últimos anos de vida!
Mas quais últimos anos? São dias, semanas, no máximo meses! Não são anos! A não ser que sejamos políticos. Bastam dois mandatos, dez anos no máximo e lá vem uma reforma cheia de regalias. Quem trabalha a sério é que sabe. E... "gozar a reforma"?
Que gozo se pode ter com 60 e tal anos, quase 70? O que se vê mais por aí são velhos no engate, a andar atrás de gajas; velhos na má vida, por assim dizer. Os adolescentes passam por eles e abanam a cabeça.
"Vão mas é trabalhar. Estes velhos só sabem é gozar a vida."
A reforma não é para os reformados, para os verdadeiros reformados, aqueles que trabalharam, não é para eles gozarem a vida; é o último gozo do Estado. Goza com o pessoal enquanto trabalha e quando o pessoal está com os pés prá cova, manda-os embora e diz: "Vá, vão curtir a vida!"
Os políticos reformam-se mais cedo. Têm direito à reforma antecipada. Será que existe uma reforma atrasada? Há pessoas que começam a trabalhar antes da idade legal; porque não reformarem-se depois? Porque as há. Há pessoas que não conseguem largar o trabalho. Podem obrigá-las, podem processá-las; não adianta, elas continuam.
"Eu ainda consigo."
Não desistem por muito que seja altura de o fazerem.
Eu não tenho que me preocupar com isto. Felizmente. Ainda sou um rapaz novo, mas hei-de chegar a velho. Tenho até um pequeno desejo, um último desejo que é viver até aos 100 anos. Não é por nada. É só para ver se a Segurança Social está preparada para uma situação destas. É que, normalmente, as pessoas reformam-se entre os 65 e os 70, vivem mais um ou dois anos e depois morrem.
Quando conseguem chegar aos 70, é um caso raro. Aos 80, o caso começa a tornar-se preocupante, são feitos os primeiros contactos com assassinos particulares. Aos 90, começa a haver escassez de fundos, é feito um orçamento. E aos 100?
Aos 100, imagino-me internado num hospital, ligado a uma máquina. Algures num gabinete secreto, um membro do governo dá ordem para avançar. Horas depois, uma equipa de ninjas, vinda de helicóptero, invade o meu quarto pela janela e corta-me às fatias com as suas katanas. Zás! Ou isso ou enfermeiras subornadas injectam-me uma dose tripla de morfina. Qualquer coisa para aliviar a sobrecarga da Segurança Social.

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