26/07/11

TERMINUS 266: A CARTA

Quando algo fora do comum é noticiado, é habitual as pessoas mais perto do acontecimento, mesmo não fazendo parte dele, manifestarem-se publicamente com expressões do calibre de “Eu já estava mesmo ver.”, “Ainda no outro dia lhe disse.” ou “Já cá andava desconfiado.” Esta emissão de opinião que não diz nada em concreto faz parte do ser humano e, acima de tudo, do ser português. O fenómeno torna-se tão ou mais curioso quando aplicado a algo que... não constitui qualquer surpresa.
Na minha formação básica de jornalista, aprendi que noticiar é relatar os factos, tal e qual eles acontecem. Há, no entanto, alguns critérios essenciais a serem seguidos, tais como a proximidade, a actualidade e a relevância. Na época que se avizinha, estou certo de que não faltarão notícias em que nenhum destes critérios é observado.
Dou-vos exemplos. Uma mulher cair do sexto andar e morrer não é notícia. Seria notícia ela cair do sexto andar e sobreviver sem ferimentos. Ou cair do sexto andar e a meio da queda abrir-se um portal e ela passar para outra dimensão. Ou levantar voo. Isto seria notícia, a causa conhecida procedida por um efeito inesperado.
Um outro exemplo tem que ver com uma carta divulgada publicamente. A carta, assinada por notáveis socialistas, incluíndo ex-ministros do governo de Sócrates, faz saber das coisas que correram mal no governo que ocuparam. Naturalmente que isto não é notícia porque já toda a gente sabia que as coisas não estavam a correr bem.
É uma atitude que, por princípio não lhes fica bem, mas faz parte de ser político. Quando era secretário-geral, estava tudo bem, estavam todos bem com ele; assim que sai, começam logo a falar mal. É um pouco mesquinho, talvez. Todavia, consigo entender a posição destes ex-governantes e apoiantes socráticos. É difícil estar no centro dos acontecimentos e descrevê-los de forma objectiva; mais difícil ainda se torna quando somos parte interveniente nos mesmos. O ex-ministro da Economia, Vieira da Silva, ou a ex-ministra do Trabalho, Helena André, por exemplo, estavam demasiado próximos para pensar e falar livremente.
Tempo e distância. Por vezes é tudo o que precisamos para pôr as coisas em perspectiva. É o que nos permite falar dos acontecimentos com descontração, avaliar o que fizemos bem e o que fizemos mal.É o que nos permite fazer um balanço apurado e isento de especulação.
Mas admito que teria sido bem mais interessante, quiçá, mais produtivo, esta missiva ter sido escrita e divulgada há mais tempo. Porventura, antes disto tudo ter descambado da maneira como descambou. No tempo do conde D. Henrique, por exemplo.

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