27/08/11

TERMINUS 274: BOM PORTUGUÊS

Sou só eu que ando lixado com o “Bom Português”? Até há coisa de meses atrás, antes de se começarem a preocupar com o Acordo Ortográfico, era uma rubrica interessante. Não só dava a conhecer palavras pouco utilizadas da nossa língua, como denunciava erros comuns do dia a dia. Sendo o Português, tal como a Matemática, uma das disciplinas base da aprendizagem escolar – e também uma das mais maltratadas – qualquer programa que se prestasse à correcção da ortografia e da gramática seria bem vindo. Tudo estava bem... até descambar.
De rubrica didáctica e curiosa, o “Bom Português” passou a manual do enfado. Eu percebo a necessidade de explicar às pessoas como é que o Acordo Ortográfico funciona. Não que isso as vá ensinar a escrever bem, mas enfim... Compreendo a intenção e apoio-a. Mas é preciso ir tanto ao pormenor? Posso não concordar com o Acordo Ortográfico, mas percebo as suas regras principais. Palavras com consoante muda (óptimo, director, Egipto) passam a ser escritas sem essa letra (ótimo, diretor, Egito). Para quem passou a sua infância e boa parte da sua juventude a ler banda desenhada brasileira, esta grafia não me incomoda nada. Outra regra: palavras como egípcio, factual ou opção escrevem-se tal como se dizem. Depois temos os acentos, que ora se colocam, ora se tiram. Com maior ou menor dificuldade, explicando bem a regra, basta um ou dois exemplos para a coisa encaixar.
O que me irrita no “Bom Português”, contudo, é a insistência. Parece que querem dar todos os exemplos possíveis para cada regra. Aceito que é preciso insistir para que as regras peguem. O problema é quando as regras não fazem sentido. Quando as palavras têm dupla grafia, por exemplo. Aí todos acertam. Não sabem se estão a responder bem ou mal porque ambas as respostas estão certas. O que é que se aprende com isto? Nada.
Ou, pior, quando ninguém acerta e a jornalista vê-se forçada a perguntar “Tem a certeza? Veja lá bem...” Só falta dizer, “Vá, repita comigo.” Ditam as regras que a rubrica encerre com um cidadão a enunciar a forma correcta de escrever ou dizer certa palavra ou expressão. Graças às regras algo estranhas e contraditórias do Acordo Ortográfico, boa parte dos entrevistados adivinha à sorte; os restantes têm de ser ensinados até acertarem.
O propósito continua a ser bom, apesar da parvoíce que o circunda, mas penso que não se deveria limitar ao Português. Seria bom, ainda para mais agora que temos um Matemático como Ministro da Educação, que o “Bom Português” ganhasse uma irmã sexy chamada “Matemática Boazuda”. Começaríamos pela base. “2+2=?” e depois iríamos para a tabuada. A criatividade não está apenas nas palavras, está também nos números. As estatísticas do sucesso escolar assim o demonstram.

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