24/08/11

TERMINUS 273: QUINZE MINUTOS

 
Quando tinha 15, 16 anos costumava gravar rábulas com amigos e colegas de escola. Cada um de nós fazia figura de parvo, fosse através do que dizia ou do que vestia para dar corpo aos personagens a que dávamos vida. Compreendo, por isso, o fascínio que os jovens de hoje em dia têm com a Internet e com o Youtube em particular. Tal como eu há quinze anos, também eles hoje fazem figura de parvo e gravam isso para a posteridade. O que distingue uma geração de outra, no entanto, é a partilha. Nós gravávamos para nós, para o grupo e amigos próximos do grupo; eles gravam para o mundo.
Naquele tempo não havia Internet como há hoje. Eram tempos em que um download de 50 megas era coisa para levar seis meses ou mais. Mas só não ajuda a explicar a propagação do fenómeno. Podia não haver partilha online, mas partilha offline sempre houve. Quantos de nós é que não levavam o vídeo para a casa de amigos para gravar filmes do clube de vídeo? Quantos de nós não gravávamos vinis para cassete e depois fazíamos uma cópia num deck duplo? A partilha sempre existiu. A razão de ser é que mudou.
O nosso processo era elaborado, baseava-se num guião e havia preparação, o dos jovens de hoje é espontâneo. Pegam numa câmara e vão, por assim dizer (ou mesmo literalmente), para a estrada. Nós procurávamos a diversão e tentávamos manter a coisa em privado. Não queríamos gente de fora a ver. Os jovens de hoje apenas procuram a fama temporária, mesmo que isso lhes custe a vida. Existem excepções, claro. Tal como no meu tempo, também hoje existem jovens que procuram gravar vídeos de humor de forma mais ou menos séria. Infelizmente, não são esses que fazem manchete.
Jovens a morrer enquanto executam façanhas para as quais não estão minimamente preparados sempre houve. Sempre haverá. O problema é que muitos dos jovens de hoje cometem esses actos motivados pela popularidade que a Internet gera. E eu não aprecio isso. Parece-me injusto acusar a Internet de ser responsável quando situações semelhantes sempre ocorreram. A busca pela fama faz parte do ser humano, o bom senso de cada um é que deve estabelecer uma linha.
Uma vez contaram-me a história de um fotógrafo famoso que resolveu saltar dum prédio e fotografar a sua própria queda. Ele não sobreviveu, mas a foto ficou para a História como símbolo de determinação. No caso dele não era o risco que o motivava, era o registo dum momento único. Ele sabia que ia morrer e estava disposto a isso. A sua última fotografia é mundialmente famosa, mas daqui por uns anos quem se lembrará dos jovens que entopem o Youtube com vídeos que os deixaram marcados para a vida?

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