21/08/11

TERMINUS 272: ADOECER EM PÚBLICO

Um médico oftalmologista foi despedido do Hospital Sousa Martins. O Conselho de Administração do referido hospital acusou o médico de faltas injustificadas e obrigou-o a repor todos os salários recebidos desde o início da sua baixa médica, em Junho de 2010. Como justificação serviu-se do argumento “se está doente para trabalhar no público, também tem de estar doente para trabalhar no privado”. É caso para perguntar: mas que porcaria é esta?! Sempre a falar que nunca se faz nada, que somos uma cambada de calões. Este senhor está doente e, mesmo assim, vai trabalhar. E o que é que lhe fazem? Castigam-no. Belo exemplo. Reparem que não estamos a falar dum profissional que recebe pouco por mês. Um médico recebe bem o suficiente para poder ficar em casa sem fazer nada. Além disso, é qualificado para saber até que ponto ir trabalhar pode ser prejudicial para a sua saúde. Fazê-lo, mesmo ciente destas condições, é um exemplo de integridade.
Com um percurso profissional equilibrado entre o público e o privado estou em condições de defender este senhor. Acredito que muitos não saibam, e que mais ainda me critiquem por revelar isto, mas a verdade é que ficar doente no público não tem nada a ver com ficar doente no privado.
Um funcionário público entra em depressão. Fala com os seus superiores. É feita uma avaliação do seu estado psicológico e decidem que o melhor a fazer é ir para casa até ficar bom. O tempo de permanência é equivalente ao cargo que ocupe ou ao número de anos de militância do partido em maioria. Um funcionário privado entra em depressão. Deixa-se estar calado. Ou fala com os seus superiores. E quando fala, é feita uma avaliação ao seu desempenho para se perceber até que ponto aquele funcionário é indispensável. Pode acontecer, também, fingirem que não se passa nada, e deixar o funcionário entrar em colapso até ao ponto em que seja justificado despedi-lo.
Este médico da Guarda adoeceu no público, mas continuou a trabalhar no privado por isto. Não foi por dinheiro. Foi por receio. Vamos a um consulta do médico de família no Centro de Saúde e ele não aparece porque teve uma emergência familiar. Partimos para o seu consultório privado e lá está ele a atender um sujeito que, a julgar pelo tamanho, deve comer que nem uma família inteira.
Durante um ano este médico esteve doente e, mesmo assim, ia todos os dias trabalhar. Admire-se o sacrifício e tire-se daqui uma lição. Se não fosse pelo sacrifício destes funcionários públicos, o sector privado seria uma miséria.

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