12/10/11

TERMINUS 278: CULTURA, SUBSÍDIOS E OUTRAS CENAS

Há uns meses atrás resolvi concorrer ao Programa de Apoio à Escrita de Argumentos para Longas Metragens de Ficção promovido pelo ICA. Foi a primeira vez que concorri a tal concurso e, embora não tenha sido contemplado com nada, a experiência não foi tão má quanto isso.
Não muito tempo depois de apresentar a minha candidatura, recebi (eu e os restantes candidatos) as avaliações do júri. Tendo tempo para as contestar, não o fiz. Com base nos critérios de avaliação e nas suas notas, a avaliação que faziam do meu trabalho era justa.
Dos que venceram, apenas conheço o trabalho de um deles e já o congratulei por isso; dos restantes, há um em particular que merece um olhar mais aprofundado: João Canijo.
João Canijo irá receber 9500€ para escrever um guião para o seu próximo filme intitulado "Fátima". À partida, esta informação parece ficar por aqui. Ele candidatou-se a um subsídio para escrever um argumento, recebeu o subsídio e agora vai escrever o argumento.
O João Canijo tem um filme nas salas de cinema ("Sangue do Meu Sangue") de que toda a gente anda a falar. Confesso que me estou a mentalizar para o ir ver mas, por enquanto, ainda não consegui ultrapassar a inovação da narrativa que é aquele trailer com a Rita Blanco.
Rita Blanco, numa entrevista recente ao Jornal I, falou deste filme, como decorreram as filmagens, o modo de trabalhar do realizador, a forma como desenvolveu a personagem e o processo de criação da história. Foquemos-nos nos últimos aspectos que são aqueles que me dizem mais respeito.
Em primeiro lugar, não cabe à actriz desenvolver a personagem, cabe ao argumentista. Dito de outra forma, a actriz pode trabalhar no perfil e características que o argumentista apresenta, pode apresentar sugestões, melhorar alguns aspectos, corrigir outros, eliminar outros, etc. O que não pode acontecer, como é mencionado na entrevista é isto:
 

O seu papel é o da Márcia, a mãe. A personagem foi criada por si?
O João Canijo disse-me para inventar uma situação em que pudéssemos ir ao encontro do que queríamos. Inventei e, até certa altura, ele não percebia porque é que eu queria esta história. Discutimos muito, mas lá nos explicámos e percebemos que fazia sentido para os dois. E para todos os outros actores. As personagens foram entrando e, cada uma, adaptando-se às histórias. O filme construiu-se neste puzzle.
 


Não é actriz que cria a personagem! É o argumentista! A actriz deve-se "limitar" a dar corpo à figura que vem no papel.
Depois temos o processo de criação. Um filme, seja ele curto ou longo, é feito, deve ser feito, com base num guião. Guião esse que habitualmente é escrito antes do filme ser realizado.
Em 2007 João Canijo foi contemplado com um subsídio do ICA no valor de 10.000€ para escrever o argumento para este filme. Um argumento, para quem não sabe, deve ter a história do filme, desconstruída cena a cena, com os respectivos diálogos. Ora, como se poderá ler pela já mencionada entrevista à protagonista do filme, o filme foi feito com ensaios e improvisos, não com um guião. Aos actores não era dado um perfil para trabalharem, era-lhes dito "Tu hoje vais ser um gajo de óculos!", ou "Agora faz de conta que 'tás constipado!".
Onde é que eu quero chegar com isto? Pretendo contestar a decisão do ICA de atribuir um subsídio de apoio à escrita de um guião a quem depois não escreve nada? Não exactamente. Apenas pretendo perceber o que se passou.
Uma das cláusulas impostas aos vencedores é a obrigatoriedade de apresentar um guião, sob pena de lhes ser retirado o subsídio. Considerando isto e o que é mencionado na entrevista, temos três hipóteses à escolha. A primeira é: João Canijo não escreveu o argumento contratualizado e teve de devolver o dinheiro; a segunda: João Canijo escreveu o argumento contratualizado, mas ficou tão mau que resolveu fazer o filme sem ele; terceira: João Canijo não escreveu o argumento contratualizado e não teve de devolver o dinheiro.
Recapitulando, em 2007 João Canijo recebeu 10.000€ do ICA para escrever um guião para o filme "Sangue do Meu Sangue". De acordo com Rita Blanco, a protagonista do filme, este foi feito sem guião. Em Junho de 2011, o ICA decidiu atribuir 9.500€ a João Canijo para escrever o argumento para o seu próximo filme, "Fátima."
Conclusões? É melhor não. Mas posso deixar aqui um "cheirinho" daquilo que me parece que vai ser este argumento.

FÁTIMA
Um filme de João Canijo

Cena 1 – Filmar peregrinos
Cena 2 – Falar com peregrinos
Cena 3 – Filmar Santinhas
Cena 4 – Filmar velinhas
Cena 5 – Pôr música sacra na banda-sonora
Cena 6 – Pedir a outra pessoa que escreva o guião

E aqui fica também o trailer de "Sangue do Meu Sangue".

A entrevista de Rita Blanco ao Jornal I pode ser lida na íntegra aqui (pelo menos enquanto o link estiver activo).

10/10/11

TERMINUS 277: HISTÓRIAS DE (DES)ENCANTAR

Era uma vez um menino chamado Pedrito. O Pedrito era muito traquinas, mas era um bom menino. Cumprimentava as pessoas e dizia “por favor” e “obrigado”. Durante o dia, enquanto os pais estavam a trabalhar, o Pedrito ia para uma Creche muito bonita e colorida. O Pedrito tinha muitos coleguinhas nessa Creche, com os quais brincava o dia todo.
Todos os dias, ao final da tarde, o pai ou a mãe do Pedrito iam buscá-lo à Creche. Depois duma boa banhoca e dum delicioso jantar, o Pedrito ia para a cama fazer óó. Antes de adormecer, o Pedrito gostava sempre de ouvir uma história de encantar. O pai ou a mãe diziam-lhe então para ele escolher que história ele queria ouvir.
O Pedrito tinha um quarto muito grande, com muitos e muitos livros. O Pedrito gostava de todos os livros que tinha. Mas só havia um que ele gostava de ouvir antes de fazer óó. Apesar de já saber a história de cor e salteado, o Pedrito não escolhia outro livro senão aquele e os pais não insistiam. Apoiavam o filho nessa escolha e sentavam-se ao seu lado para contar essa tal história.
E a história dizia assim:
Há muito, muito tempo, numa ilha muito distante, vivia um rei que se gostava de vestir de Carmen Miranda e de Pipa (de vinho, não diminutivo de Filipa, embora quem se vista de Carmen também se possa vestir de Filipa). Nessa ilha viviam muitas pessoas, muitos animais e também o rei. A ilha era muito bonita e as pessoas gostavam de viver lá, mas o rei nunca estava satisfeito.
De vez em quando as pessoas tinham de dizer se gostavam daquele rei ou se queriam outro. Como a ilha era muito grande, o rei enviava carroças a casa de todas as pessoas que moravam longe. Àquelas que ficavam satisfeitas com este gesto de boa vontade do rei dizendo que queriam que ele fosse rei por mais quatro anos, o rei dava-lhes boleia de volta para casa. As outras iam a pé.
A cada convocação, as pessoas apareciam para dizer que queriam que o rei ficasse. E todas podiam voltar para casa, manter os empregos, não perder pensões ou subsídios ou não cair, sem querer, duma ravina abaixo.
As pessoas voltavam às suas vidas e o rei sentava-se no trono porque ele era bom para as pessoas e as pessoas eram boas para ele.
Quando acabava a história, o Pedrito já dormia profundamente. Com muito cuidado, o pai ou a mãe pousava o livro na estante e saía do quarto de mansinho. Na sala encontrava-se com a sua cara metade e suspirava:
“Porra que já não posso mais com esta história! Ainda gostava de saber quem foi a besta que decidiu escrever um livro infantil com base nas eleições na Madeira.”

07/10/11

TERMINUS 276: CRITÉRIO SEGURO

Numa intervenção recente o secretário-geral do PS, António José Seguro, afirmou não aceitar a redução do número de freguesias no Interior do País com base no critério do número de habitantes. Acho bem. Vindo de quem vem, provavelmente terá dito o contrário ao jantar, mas concordo com as razões desta sua recusa.
Extinguir freguesias, anexando rivalidades e ódios históricos só por causa dos números é um erro crasso. Qual é o mal de ter freguesias com 150 habitantes ou menos? Para mim, que andei a percorrer Portugal de lés a lés e vi como é que o País (não) funciona, não vejo qualquer problema nisso.
Consideremos, por exemplo, a freguesia de Fajão na Pampilhosa da Serra. De acordo com os Censos de 2001, esta freguesia tem 295 habitantes. Será isso razão suficiente para anexá-la à freguesia do Macchio (146 habitantes) e à freguesia do Vidual (93 habitantes)? Se a iniciativa partir dos habitantes e todos estiverem de acordo que é o melhor a fazer, não tenho nada contra. Mas não obriguem as pessoas a isso. Principalmente com base no critério dos números.
Se tiverem que utilizar algum critério, podem dizer que a redução do número de freguesias e concelhos é uma das contrapartidas do empréstimo que fizemos à troika. Podemos não concordar com isso, mas não podemos dizer que é uma desculpa não-existente.
A certa altura utilizou-se o argumento “A estas pessoas já tiraram o professor, o médico. Não lhes deixem tirar o presidente da Junta.” Porque não? Em que medida é que perder um presidente da Junta é o mesmo que perder um médico ou um professor? Se alguém ficar doente ou analfabeto, não é um presidente da Junta que vai ajudar. A não ser que seja médico ou professor.
Sejamos honestos, praticamente todos nós somos a favor da união ou extinção de freguesias e concelhos. Quando apresentada a ideia, até somos capazes de dizer “Hum... Juntar freguesias com número reduzido de habitantes para poupar recursos? Não está mal pensado, não senhor.” No entanto, a conversa muda de figura assim que percebemos que a nossa freguesia, o nosso concelho, é um dos visados pela medida. “O quê? Nem pensar! Nunca na vida os habitantes de Boi Coxo se juntarão com esses atrasados mentais de Cabra Manca!
E a identidade histórica destas pessoas? Alguém pensa nisso? António José Seguro pensa. Ele sabe que uma forma segura de conquistar apoios é apelar ao bairrismo de cada um. Tanto faz que seja no Interior ou no Litoral. As ideias são sempre todas boas... desde que sejam para os outros.

04/10/11

TERMINUS 275: BIPOLARISMO POLÍTICO

Alguém me sabe dizer qual é o partido com que o CDS-PP está coligado no Governo? Por acaso tem alguma coisa a ver com o partido que está no poder do Governo Regional da Madeira há mais de trinta anos? Reparem que eu não sou por um ou por outro; só estou a perguntar.
O Paulinho das feiras deu um saltinho à Madeira para comparar Alberto João Jardim a José Sócrates. Acho estranho que ele tenha lá ido fazer um discurso de cinco minutos para depois regressar logo ao continente. Sempre julguei que o zapping desse até meia hora.
Ora bem, à primeira vista diria que não há com que comparar Alberto João Jardim e José Sócrates. Mas basta olharmos com alguma atenção para percebermos as semelhanças. Para começar, ambos são políticos e ambos têm PSD como matriz ideológica. Se os observarmos com ainda mais atenção, percebemos um comportamento padrão. Quando acusados de algo, é costume tentarem desviar as atenções dizendo que os seus acusadores estão a acusá-los para tentar desviar as atenções. A chamada campanha negra. É complicado, mas isto da política não é para todos.
Paulo Portas acusou Alberto João Jardim de ser despesista como Sócrates. Por outras palavras, o PSD Madeira é igual ao PS do continente. O problema, quer queiramos quer não, é que o PSD Madeira faz parte do PSD do continente. O que é o mesmo que dizer que o PSD do continente é o mesmo que o PS do continente e eu não acho que seja correcto comparar Pedro Passos Coelho a António José Seguro. É verdade que ambos começaram nas Jotas dos seus partidos, é verdade que Seguro, tal como Passos Coelho quando estava na oposição, tem o hábito de mudar de opinião a cada almoço que realiza, mas só isso não chega.
Faz-me confusão, embora não tenha nada a ver com isso, o nível de esquizofrenia com que os líderes políticos estabelecem e desfazem alianças. Que o adversário de ontem seja um aliado hoje contra um adversário mais perigoso, como costuma acontecer nas Presidenciais, entende-se. É uma aliança temporária para evitar um mal maior. Custa-me a perceber, no entanto, que o adversário de hoje seja também o aliado de hoje. Talvez seja bipolarismo político.