07/10/11

TERMINUS 276: CRITÉRIO SEGURO

Numa intervenção recente o secretário-geral do PS, António José Seguro, afirmou não aceitar a redução do número de freguesias no Interior do País com base no critério do número de habitantes. Acho bem. Vindo de quem vem, provavelmente terá dito o contrário ao jantar, mas concordo com as razões desta sua recusa.
Extinguir freguesias, anexando rivalidades e ódios históricos só por causa dos números é um erro crasso. Qual é o mal de ter freguesias com 150 habitantes ou menos? Para mim, que andei a percorrer Portugal de lés a lés e vi como é que o País (não) funciona, não vejo qualquer problema nisso.
Consideremos, por exemplo, a freguesia de Fajão na Pampilhosa da Serra. De acordo com os Censos de 2001, esta freguesia tem 295 habitantes. Será isso razão suficiente para anexá-la à freguesia do Macchio (146 habitantes) e à freguesia do Vidual (93 habitantes)? Se a iniciativa partir dos habitantes e todos estiverem de acordo que é o melhor a fazer, não tenho nada contra. Mas não obriguem as pessoas a isso. Principalmente com base no critério dos números.
Se tiverem que utilizar algum critério, podem dizer que a redução do número de freguesias e concelhos é uma das contrapartidas do empréstimo que fizemos à troika. Podemos não concordar com isso, mas não podemos dizer que é uma desculpa não-existente.
A certa altura utilizou-se o argumento “A estas pessoas já tiraram o professor, o médico. Não lhes deixem tirar o presidente da Junta.” Porque não? Em que medida é que perder um presidente da Junta é o mesmo que perder um médico ou um professor? Se alguém ficar doente ou analfabeto, não é um presidente da Junta que vai ajudar. A não ser que seja médico ou professor.
Sejamos honestos, praticamente todos nós somos a favor da união ou extinção de freguesias e concelhos. Quando apresentada a ideia, até somos capazes de dizer “Hum... Juntar freguesias com número reduzido de habitantes para poupar recursos? Não está mal pensado, não senhor.” No entanto, a conversa muda de figura assim que percebemos que a nossa freguesia, o nosso concelho, é um dos visados pela medida. “O quê? Nem pensar! Nunca na vida os habitantes de Boi Coxo se juntarão com esses atrasados mentais de Cabra Manca!
E a identidade histórica destas pessoas? Alguém pensa nisso? António José Seguro pensa. Ele sabe que uma forma segura de conquistar apoios é apelar ao bairrismo de cada um. Tanto faz que seja no Interior ou no Litoral. As ideias são sempre todas boas... desde que sejam para os outros.

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