25/11/11

TERMINUS 281: UMA (ENGRAÇADA) IDA ÀS FINANÇAS

Gosto de ir às Finanças. Muita gente detesta ter de ir às Finanças, mas eu não. Eu gosto mesmo de ir lá. E gosto particularmente quando tenho de ir lá sem razão. Há alturas em que preciso ir lá, há outras em que vou lá só para dar um “olá” e depois vou à minha vida. Mas as alturas que eu gosto mesmo mesmo de ir é quando não deveria ter de ir. Nomeadamente, quando recebo a cartinha em casa com uma coima choruda para pagar.
Já tenho recebido dessas cartinhas em casa – quem não recebeu? – e é com um grande sorriso que vou à Repartição mais próxima efectuar o pagamento. Poderia ir a um Multibanco, ou pagar via Internet, mas o estar à espera para dizer que se quer fazer o pagamento e depois esperar novamente para pagar de facto é outra alegria. Principalmente quando sou atendido por alguém carrancudo. Acredito que a minha boa-disposição ao sair dali terá contribuído para melhorar o estado de espírito de quem me atendeu.
Sempre que recebo uma cartinha das Finanças em casa sou logo tomado duma grande ansiedade. A maior parte das vezes são cobranças justificadas – tipo não assinalar a alínea c) do número 17 do impresso 24, que refere o desejo de não ser cobrado indevidamente – e, por isso, sem surpresa. De vez em quando, a surpresa surge e sou intimado a pagar dívidas contraídas por pessoas com nomes parecidos ou iguais aos meus.
Já vos aconteceu isto? É tão bom, não é? Ao menos não nos trocaram o nome todo, foi só uma parte. A bem da verdade, confesso que tal situação nunca me aconteceu. Com grande pena minha. Só me leva a crer que a minha combinação de nomes e apelidos encontra poucos exemplares no nosso país.
Imagino que seja uma situação povoada de momentos de grande comicidade. O senhor Arlindo Batata recebe uma notificação das Finanças para efectuar o pagamento duma coima de 300 euros. No dia seguinte outra notificação, desta vez relativa a uma coima de 413 euros. E por aí fora. Ao fim de cinco dias consecutivos de coimas, o senhor Arlindo Batata começa a achar que aquilo não é normal e resolve ir às Finanças.
O senhor Batata vai para lá logo de manhã e, após esperar três horas na fila errada, lá tira a senha certa e consegue ser a terceira pessoa a ser atendida depois de almoço. O simpático funcionário limita-se a dizer que ali não podem fazer nada, apenas cobrar. Se o senhor Arlindo não pagar a dívida, o seu ordenado será penhorado.
O senhor Arlindo Batata esclarece que as notificações foram enviadas para o contribuinte errado, um tal Arlindo Batata-Doce, mas esse esclarecimento cai em saco roto. Ou paga ou fica sem ordenado. O senhor Arlindo Batata decide então perguntar se as Finanças lhe irão providenciar trabalho, na medida em que ele está desempregado e não dispõe de ordenado para ser penhorado.
As Finanças riem-se.

22/11/11

TERMINUS 280: QUANTAS VEZES?

Quantas vezes é que, na estação de Metro do Marquês de Pombal, na Linha Azul, é proferido o seguinte aviso: “Atenção ao intervalo entre o cais e o comboio”? Antes de responder a esta questão, importa analisar o aviso e as circunstâncias em que o mesmo é dito.
Em primeiro lugar, a distância que vai do cais ao comboio nesta estação é igual a todas as outras. Não andei a medir, mas quer me parecer que a necessidade de um aviso de segurança só seria justificável se estivéssemos a falar de diferenças verificáveis a olho nu. Milímetros, parafraseando o outro, são pintelhos.
Temos depois a questão das circunstâncias. O aviso é dito apenas numa estação e, dentro dessa estação, apenas na Linha Azul. Se não é possível identificar as razões por detrás disto, é possível apontar as consequências.
Por norma, o aviso deveria ser feito em todas as situações – neste caso, em todas as estações – ou, em alternativa, na presença duma série de critérios, facilmente observáveis, que o justifiquem. A exclusividade deve ser, por isso, apenas aplicada quando há uma distinção inequívoca entre o caso ou casos em questão e todos os demais.
Implantar uma diferença ou sugerir uma cautela numa estação, numa linha, em deterimento de todas as outras, é influenciar as pessoas a que só tomem cuidado naquele caso em especial e se desleixem nos restantes.
Ainda por cima estamos a falar duma distância que para cair lá para dentro é preciso ser-se subnutrido ou, mais magro ainda, uma top-model. Pessoas normais não caem ali. Podem tropeçar, mas tropeçam mais vezes devido aos empurrões nas entradas e saidas do que àquele espacinho entre o cais e o comboio.
A solução? Dar o aviso em todas as estações e em todas as linhas. Ou não avisar em nenhuma e colocar autocolantes nas portas. O aviso para não forçar as portas é accionado pelo condutor da composição apenas quando este decide. Na maioria das vezes, o autocolante é aviso suficiente.
Na estação do Marquês de Pombal, como se não bastasse avisar uma vez, avisam quatro, cinco e seis. O metro já vai na Pontinha e ainda estão avisar os passageiros que saíram e entraram no Marquês de Pombal para terem cuidado.
A resposta à pergunta inicial, “Quantas vezes é que, na estação de Metro do Marquês de Pombal, na Linha Azul, é proferido o seguinte aviso: “Atenção ao intervalo entre o cais e o comboio”?” só pode ser, portanto: DEMASIADAS.

10/11/11

TERMINUS 279: CONFIANÇA

Quando se está afastado algum tempo é sempre difícil encontrar o tema certo para abordar num artigo de análise. Felizmente temos o Expresso, esse jornal grande, onde se encontra sempre qualquer coisa.
No site do Expresso (são oito da manhã, está a chover como o caraças, ainda não saí de casa e não vou sair só para ir comprar o jornal) vinha hoje (dia 9 de Novembro) uma pequena... peça informativa sobre a relação de confiança que nós temos com as instituições conotadas com o Governo.
O artigo, apesar de pequeno (tem apenas três parágrafos), possui uma complexidade de ideias tão bizarras que quase que parece que é sério. Tão sério que me atrevo a dizer que se isto fosse um estudo elaborado por algum instituto público, o mais certo era fechar portas depois. Como é só uma opinião, o máximo que conseguimos é colocar alguém a fazer transfusões de sangue sob a vigília de Leonor Beleza. Já lá vamos, calma.
Diz então o sociólogo José Manuel Mendes que nós desconfiamos, ou temos pouca confiança nas instituições ligadas ao Governo. Excepção feita àquelas ligadas à protecção e socorro. Subscrevo mais ou menos. Basta pensar nas inundações que acontecem todos os anos assim que começa a chover, ou nos incêndios que arrasam o país, ou no quizz a que é preciso responder sempre que se chama uma ambulância para nos apercebermos que a nossa confiança nestas instituições é um bocado como dar dinheiro a um arrumador para que não nos risquem o carro.
No entanto, apesar destas falhas, depositamos mais confiança nas instituições ligadas à protecção e ao socorro do que nas outras. Porquê? O Instituto Português do Livro e da Biblioteca, o organismo que tutela as bibliotecas públicas, tem feito um bom trabalho. Talvez não tenha sido perfeito para todos, mas se nos lembrarmos como eram as bibliotecas há vinte, ou mesmo dez anos, e como são agora, a diferença é... colossal.
O que é que nos faz confiar nesta gente? Diz José Manuel Mendes que em Portugal "não houve nenhum episódio que desconstruísse a confiança das pessoas" como aconteceu noutros países da Europa, com o sangue contaminado.
A resposta de José Manuel Mendes é simples e elucidativa. O complemento que se segue à citação é que não sei se pertence ao próprio ou se foi alguém que não estava cá nos anos 80 que acrescentou.
Caro José Manuel Mendes, ou outra pessoa que diz basearmos a nossa confiança nas instituições públicas de protecção e socorro no facto de, em Portugal, não ter havido nenhum caso de sangue contaminado, só vos digo isto: vão ao Google e pesquisem por “hemofílicos + Leonor Beleza”. Não se resolveu, apenas prescreveu. Como é tradição. E nem sempre as tradições são de confiança.