07/12/11

TERMINUS 282: O TERCEIRO F

Dos três grandes Fs que compõem a nossa identidade nacional – Fátima, Futebol e Fado – havia um que, embora não esquecido, era o menos divulgado dos três. Essa lacuna chegou finalmente ao fim com a eleição do Fado como património imaterial da humanidade. E assim como o futebol e Fátima nos têm proporcionado momentos de grande relevância informativa – os directos de Centros de Estágio da Selecção onde um repórter tenta adivinhar a equipa e a táctica que o seleccionador vai usar, as perguntas aos peregrinos a caminho do santuário, “Vai porque tem fé, não é?”, “Não, vou porque não tenho carro.” - não tardou muito para que o mesmo acontecesse com o Fado.
Eu previ, embora não se possa dizer que tenha sido uma grande previsão, que com esta vitória não tardariam a surgir reportagens e programas especiais sobre Fado. Já para não falar de todos aqueles que, dum dia para o outro, passaram a adorar o fado. (Pessoalmente, não gosto nem desgosto. Não sou de géneros, sou de músicas. Se gostar da música, não me interessa que seja fado, trance, pimba, ou rock.)
Um dos primeiros programas a comprovar a minha teoria do ridículo foi uma entrevista a Celeste Rodrigues, emitida no passado Domingo na RTP 1. De forma a demonstrar o justo agradecimento aos fadistas que mais têm trabalhado nos últimos anos, não apenas por esta candidatura recém-vencedora, mas pela divulgação do fado a nível internacional e pela sua expansão a novas linguagens musicais – entre outros, Carlos do Carmo, Mariza e Camané – a RTP decidiu entrevistar a fadista Celeste Rodrigues. O erro de casting, chamemos assim, não tem que ver com a escolha da entrevistada. Celeste Rodrigues é uma fadista com uma longa carreira e, embora não seja tão mediática como os fadistas já referidos, certamente que tem algo a dizer sobre este reconhecimento do fado. No entanto, o canal de todos os portugueses não quer saber da opinião da pessoa viva e com carreira que está no estúdio.
A entrevista começou bem, com a entrevistadora a dar as boas noites à entrevistada. A partir daí, descambou. “Celeste, se a irmã fosse viva o que diria ela acerca disto?”
Não obstante a falta de respeito demonstrada para com que todos aqueles que desempenharam um trabalho imenso nestes últimos anos pelo crescimento do fado, e naquele momento em particular por Celeste Rodrigues, há que perceber isto duma vez por todas: a Amália morreu aos 79 anos. E num mundo real, a partir do momento em que as pessoas morrem, a relevância informativa deste tipo de perguntas é zero.
Mas para fins de exercício especulativo, façamos uma excepção. Se a Amália fosse viva teria hoje 91 anos e, sabendo a tendência que muitos fadistas têm pela copofonia, não sei se iríamos escutar uma opinião muito lúcida. Porque, quer queiramos quer não, os ídolos caem, extinguem-se. Principalmente quando puxamos muito por eles. Amália tem e terá sempre o seu valor, mas no presente, na realidade, seria melhor que guardássemos estas indagações para quando fôssemos à bruxa. O Fado é um dos três Fs, mas não o tratemos como o Futebol ou Fátima. Tratemo-lo com mais respeito.