29/04/12

TERMINUS 300: O FIM


O primeiro artigo do blogue Protuberância foi publicado a 29 de Abril de 2006. Seis anos depois é tempo de fazer um balanço, fechar a porta e seguir para novas paragens.

Este não foi o primeiro blogue que criei, nem foi aquele a que mais tempo e atenção dediquei. Foi, aliás, bastante ignorado e mal-tratado nos seus primeiros meses, diria mesmo anos, de vida. Às vezes, por falta de tempo, outras, por pura preguiça, negligenciava a escrita e publicação de artigos com outras afazeres, uns mais prioritários, outros nem tanto.

O blogue Protuberância começou por ser um texto de despedida afixado numa porta. Corria o ano de 2005, trabalhava eu no Centro de Cópias da Universidade Autónoma de Lisboa, no Pólo da Boavista, e nos seis meses que lá estivera criara uma relação de amizade com muitos alunos e professores. Os alunos de hoje ignoram isto, mas havia nesse tempo uma batalha de egos entre os cursos de Arquitectura e de Ciências da Comunicação, batalha essa capaz de fazer parecer a Guerra Civil Americana uma amena discussão no trânsito.

Quando soube que iria sair dali para iniciar um estágio na Biblioteca Municipal da Moita, resolvi expressar a minha opinião sobre esse conflito sem sentido e afixá-lo na porta do estabelecimento. Não tardou muito até eu decidir ir um pouco mais além, criando aquele que seria o meu terceiro blogue.

Durante os primeiros da sua existência, os artigos eram publicados quando havia tempo e vontade. Tanto podia estar semanas, meses, sem escrever nada, como podia escrever vários artigos no mesmo dia. (Na prática isso não mudou muito. Só que hoje em dia já sei programar os dias de publicação, coisa que antes não fazia.)

Em 2010 houve alguém que me disse que eu devia apostar a sério nas minhas crónicas. Motivado por esse desafio, contactei diversos jornais e disponibilizei-me a escrever para eles artigos de humor. Dos vários que aceitaram a minha proposta, há três (Jornal do Barreiro, O Rio e O Primeiro de Janeiro) que publicam com maior frequência textos de minha autoria. Não recebo qualquer remuneração por isso, mas é uma forma de chegar a outros públicos.

Em simultâneo com a existência deste blogue desenvolvi e concluí vários projectos. Dessa lista, constam os seguintes trabalhos:

O CAMINHO DE VOLTA - Guião para longa-metragem. Em revisão.
REDENÇÃO & DEVER - Guião para longa-metragem. Em desenvolvimento.
O CONVITE - Guião para longa-metragem. Em desenvolvimento.
R.P.G. - REAL PLAYING GAME - Guião para longa-metragem, escrito em parceria com David Rebordão. Produzido pela MGN Filmes. Em breve nos cinemas.

A CHAMADA - Guião para curta-metragem, realizada por Vasco Rosa. Disponível no MEO Videoclube
SINAPSE (aka SYNAPSIS) - Guião para curta-metragem, escrita com a colaboração de Vasco Rosa e José Inácio. Em stand-by.
SONHOS DENTRO DE SONHOS - Guião para curta-metragem. À espera de realizador.
A ARCA - Guião para curta-metragem. À espera de realizador.
A FÓRMULA DA FELICIDADE - Guião para curta-metragem. À espera de realizador.
DO OUTRO LADO (aka A PORTA) - Guião para curta-metragem. À espera de realizador.
CATIVA - Guião para curta-metragem. À espera de realizador.
DA LUCIDEZ À LOUCURA - Guião para curta-metragem. A ser reformulado para longa-metragem.
ESPELHO FALSO - Guião para curta-metragem. À espera de realizador.
O EXCLUSIVO - Guião para curta-metragem. À espera de realizador.
O LIVRO - Guião para curta-metragem. À espera de realizador.
P(L)ANO DE FUNDO - Guião para curta-metragem. À espera de realizador.
A PRIMEIRA VEZ - Guião para curta-metragem. À espera de realizador.
PSICOAPATIA - Guião para curta-metragem.A ser reformulado para longa-metragem.
SOB VIGIA - Guião para curta-metragem. À espera de realizador.
OS ÚLTIMOS QUARENTA MINUTOS DA MINHA VIDA - Guião para curta-metragem. À espera de realizador.

A INTERSECÇÃO - Guião para episódio piloto, mais dois episódios seguintes.
O ÚLTIMO - Guião para episódio piloto, mais quatro episódios seguintes.

UM CAPPUCCINO VERMELHO - Romance de ficção. Nova versão.
PÁTRIA ATRAVESSADA - Livro de viagem. A estudar hipóteses de publicação.
HISTÓRIAS EM AVULSO Contos de diversos géneros. Em revisão.
A IMAGEM - Romance de ficção. Em revisão.

É claro que esta lista, por mais extensa que pudesse ser, não desculpa o desleixo que, por vezes, demonstrei para com este blogue, embora, de certa forma, ajude a explicar o porquê desse comportamento. Portanto, contas feitas, foram seis anos produtivos q.b. e fecho esta porta consciente e satisfeito pelo trabalho que fiz.

O blogue Protuberância continuará disponível para quem o quiser visitar, mas os seus artigos terminam aqui. A partir de agora estarei no meu novo blogue: ângulo obtuso.

Visite-o já pois tem um passatempo à espera.

26/04/12

TERMINUS 299: ARTIGO (NOSTÁLGICO) SOBRE A SOFLUSA

Embora sempre tenha morado na Margem Sul, desde tenra idade que vou para Lisboa. Inicialmente acompanhado, hoje em dia por conta própria. E sempre apreciei a travessia do Tejo, tanto nos barcos antigos como nos actuais catamans. Eu tenho mais por hábito gozar com as coisas do que contemplá-las com a nostalgia que ela merecem, mas ao preparar este artigo dei por mim a fazer justamente isso. É verdade que os preços estão mais caros, há menos carreiras, despediu-se mais pessoal, mas também é verdade que antigamente demorava quase duas horas em transportes de casa para o trabalho e hoje em dia demoro metade do tempo. Não digo que concordo com o aumento do preço dos títulos de transporte – principalmente quando estes antecedem uma renovação de frota da administração – mas reconheço o avanço que se fez nos últimos anos.
A travessia tornou-se mais rápida com a chegada dos catamarans, todavia persiste um problema que já acontecia com os barcos antigos e que tem que ver com os nomes. Os nomes dos catamarans, embora prestem homenagem a pessoas ilustres da Cultura e da História Portuguesa, geram mais equívocos e embaraços do que louvores. Comentários como “Eu no Torga gosto é de ir atrás.”, e piores, não dignificam em nada o autor de Contos da Montanha.
Este problema com os nomes acontecia também, como já disse, nos barcos antigos, embora fosse num nível completamente diferente. Os barcos que partiam do Barreiro iam todos para Lisboa. No entanto, não era isso que as placas indicavam. Um barco indicava como destino “São Jorge” nos Açores, outro, mais vago, “Trás-os-Montes”, mas havia mais. E isto iludia as pessoas. Pelo menos a mim iludia. Quando eu quando apanhava um barco que tinha como destino o “Algarve” era porque eu queria ir para o Algarve e não para Lisboa! Trezentos paus para ir do Barreiro para o Algarve? Era logo!
O único que ainda escapava era o “Martim Moniz”. Não parava mesmo lá, mas era o que ficava mais perto. Fazia-me confusão eu ser o único a queixar-me disto. Entretanto, fiz a operação e tudo passou a fazer sentido. 
Voltando aos catamarans, para mim são como uma casa de banho gigante; no sentido em que, cada vez que lá vou, venho sempre com uma ideia ou uma observação. A mais recente foi um aviso que li há tempos sobre manter as crianças sob vigilância. O aviso já era antigo, já o havia lido antes, mas só nesta última leitura é que eu percebi o real significado contido naquelas palavras.
O aviso pede para manter as crianças sob vigilância. Eis o que eu não percebo em relação aos raptos nos barcos. Caso alguém tenha uma falha mental elevada ao ponto de querer levar uma dessas avante, onde é que guarda os putos? A não ser que seja alguém da tripulação, o único sítio que eu vejo para alguém guardar um puto é debaixo do banco. Onde guardam os coletes de salvação. Só que não cabem lá dentro as duas coisas. Eu sei porque já experimentei com um amigo meu que é anão – eu não gosto de falar sem saber – e aquilo é apertado. Ou seja, para enfiar o puto lá dentro, o raptor é obrigado a vestir o colete de salvação. E aquilo chama a atenção.
Manter as crianças sob vigilância. Para quê? Já viram os putos que andam nos barcos? Quem é que vai querer um puto daqueles a moer o juízo? Só dá vontade de os atirar pela janela.
Eh pá! Não sejas assim. São só crianças!”
E a culpa é de quem? Minha? Já com os bebés é a mesma coisa. Até quando é que temos de aguentar? Quando estamos num sítio público, tipo consultório, e está um bebé a chorar, ninguém é capaz de dizer nada! Ninguém! Quanto muito é para atirar palpites.
Se calhar 'tá sujo.”
Isso é mas é fome.”
Ou então sono.”
E eu pergunto: e vontade de chatear, não?
Ninguém acredita que um bebé possa fazer birra só para moer o juízo aos pais e a toda a gente à sua volta. É preciso ser-se mesmo estúpido. O Pavlov ensinou-nos isso. Estímulo-reflexo. E o bebé não é parvo. O bebé sabe que basta fazer um minuto de choradeira para lhe darem de comer, mudarem a roupa, embalarem-no e etc. É o sonho de qualquer homem. Fazer um choradinho e espetarem-lhe uma mama na boca. Alguns bem tentam, mas tudo o que conseguem é ficarem com ar deprimente.
Alguém tem de ensinar uma lição a esses bebés que choram sem razão. Mas calma! Também não sou adepto da violência excessiva. Acho que esfregar-lhe a cabeça em carne crua e pô-lo a brincar com um rotweiller dos pequeninos chega. Aí, ele pode chorar, mas já se sabe porquê e não é preciso dar palpites.

19/04/12

TERMINUS 298: ANDAR DE AUTOCARRO 3 – ANDAR SEM BILHETE & PASSE UNIVERSAL

Sempre que ando de transportes públicos costumo utilizar passe, mas houve uma altura na minha vida em que, por ser utilizador esporádico, bastavam-me os bilhetes. Hoje em dia já quase que não há bilhetes, é tudo cartão, mas eu lembro-me do medo que sentia caso o pica aparecesse quando viajava sem bilhete e da frustração quando gastava dinheiro no bilhete e não aparecia ninguém para o picar.
Isto irritava-me profundamente porque eu comprava o bilhete por uma única razão: o pica. Se o pica não aparecia, era um bilhete que ia para o lixo sem cumprir o seu real propósito. Eu não precisava de bilhete para andar autocarro: bastava-me o autocarro. Sem bilhete, podia de autocarro à mesma; sem autocarro, não podia andar de bilhete. Era tão básico como parece.
A certa altura eu desisti de comprar bilhete, o que levou a alguns confrontos bem intensos. Ao fim de três meses de utilização de transportes públicos sem adquirir um único bilhete, apareceu-me, finalmente, um pica. E o bandalho queria multar-me. Dizia ele que eu não possuía um título de transporte válido e, como tal, teria de me passar uma multa.
Irritado, confrontei-o com as vezes que tinha adquirido bilhete e ele não tinha aparecido. Não resultou. E aqui fica uma pequena grande lição: leiam os meus artigos, riam-se com as minhas parvoíces, mas não sigam os meus conselhos. Podem-se dar mal.
Esta história nunca aconteceu, foi apenas uma criação fictícia da minha parte, assim como esta ideia com a qual terminarei este artigo: tive um sonho, no qual eu era a pessoa mais espectacularmete humilde do mundo. Isto não tem nada a ver com a ideia que eu vos quero contar, foi apenas um desabafo. Vamos à ideia.
Como seria se todas as companhias de transporte públicos adoptassem um sistema de passe social universal? Já temos passes combinados com Soflusa, Transtejo, STCP, TCB, Metropolitano de Lisboa, Metropolitano do Porto, TST, Barraqueiro, CP, etc. etc. Essencialmente, transportes terrestres, fluviais e ferroviários.
E os aéreos? Há todo um mercado por explorar. O combinado TAP+Carris+CP seria óptimo para aqueles turistas que vêm da América Central com embrulhos no estômago. Com a quantidade de voos que fazem todos os meses, de certeza que lhes daria jeito. Para aquelas pessoas que viajam muito teriam de fazer vários modelos. Teríamos, por exemplo, o N (nacional), o E (europeu), o IC (inter-continental) e o PTL (pra todo o lado). Isto seriam os gerais.
Depois, tal como já acontece com os combinados já existentes, haveriam também as subdivisões. A pessoa vai à companhia, preenche os impressos, escolhe o modelo e depois a zona abrangente; o simples, o 1, o 12 e o 123, que é o maior.
Claro que haviam de aparecer problemas. É normal.
Então o senhor quer ir para as Caraíbas, não é assim?”
É sim.”
Pois, mas o seu passe é o N. Só dá até ao Cacém.”

12/04/12

TERMINUS 297: ANDAR DE AUTOCARRO 2 – HORA DE PONTA & VELHAS

A pior altura para andar nos autocarros, e transportes públicos em geral, é na hora de ponta. Eu não tenho muito que me queixar porque normalmente ando sempre fora de horas, mas às vezes, tem de ser. E o pior para mim nessas alturas, além das velhas carregadas de sacos a quererem entrar num espaço onde até os micróbios se sentem apertados, são os empurrões e os encontrões que as pessoas dão umas nas outras. Isto, já de si é chato, mas torna-se mais chato ainda quando temos aquelas pessoas que, quando nós as pisamos e não pedimos desculpa, ficam fulas. Pode acontecer nós pisarmos sem querer e não repararmos. A mim acontece-me isso às vezes. É por isso que às vezes, volta não volta, há alguém que se vira pra mim e grita, “Vê lá onde é que pões os pés, ó palhaço!”
No entanto, quando reparamos e pedimos desculpa, a resposta mais comum é, “Não foi nada. Deixe estar.” Ou então não dizem nada e ficam o resto da viagem a resmungar.
Nos autocarros há também aqueles lugares reservados a pessoas idosas, inválidas, mulheres grávidas, etc. Deixem-me só fazer um pequeno aparte para explicar uma coisa: estes lugares não são exclusivos dessas pessoas. São reservados. O que quer dizer que as outras pessoas que não se insiram em nenhuma destas categorias também se podem sentar lá. Só no caso dos restantes lugares estarem ocupados é que os destinatários têm direito, ou prioridade, melhor dizendo, a eles.
Isto vem a propósito duma cena que assisti ontem quando ia pra casa no autocarro.
O autocarro vinha quase vazio. Os lugares reservados vinham todos ocupados por várias pessoas, de todo o género, de todas as idades, incluindo um casal de jovens aí nos seus 20 anos.
Então, a meio da viagem, entra uma velha que de imediato começa a ordenar à moça que lhe desse o lugar. A moça recusa-se por estarem vários lugares vagos e a velha insiste. Esta troca de argumentos ainda dura alguns minutos, até que o namorado decide intervir e diz à velha que se vá sentar num dos outros lugares que estavam livres.
Mas a velha continuava a teimar que queria sentar-se ali. O rapaz começa a perder a paciência e é então que ela diz, “Você tem que me dar esse lugar porque eu já sou muito velha.”
Ao que o rapaz responde, “Eu não tenho culpa que você ainda esteja viva.”
O autocarro em peso esperava que aquilo descambasse à séria e até já se faziam apostas, quando subitamente a velha diz, “Eu saio já na próxima. Escusa de se incomodar.”
É má vontade, ou não é?

05/04/12

TERMINUS 296: ANDAR DE AUTOCARRO 1 – RAZÕES PARA & PASSAGEIROS

Detesto o trânsito. A sério que detesto. Para mim não há nada pior do que levar três horas de carro a fazer um trajecto que se pode fazer perfeitamente numa hora a pé. O problema, no meu ver, está nos carros. Não tenho nada contra os carros, atenção, mas, sinceramente, acho que dois carros por pessoa é um bocadinho demais. Para que é que alguém quer mais do que um carro se só pode andar com um de cada vez? É dia sim, dia não?
Há quem tente combater esse problema, usando os transportes públicos. Só que já se sabe que nestas coisas ou é 8 ou é 80. Ou vai tudo de carro, ou vai tudo de transportes. Não há meio-termo. Eu antes queixava-me porque havia muita gente a andar de carro e a entupir o trânsito. Hoje é o contrário. Anda tudo de transportes públicos. Até mesmo as pessoas que têm carro. Passámos de alguns milhares para alguns milhões. É exactamente a mesma coisa que viajar numa lata de sardinha: às tantas vale mais um gajo ir a pé.
E depois vem a qualidade dos passageiros. Oh sim! São do melhor que há! O meu preferido é aquele que fala. Não faz nada – só fala. E o pior é que fala, fala mas não diz nada de jeito.
Também gosto muito daquelas mulheres que vêm com dois riscos a fazer de sobrancelhas. Acho que elas só falam porque acreditam que é a única relação que ainda podem estabelecer com o mundo da maneira que andam na rua. Fazem-me lembrar aquele filme dos palhaços assassinos, o ‘Clown House’.
Eu não percebo porque é que as mulheres rapam as sobrancelhas. Eu acho que, na opinião das mulheres, não existe nada na face humana que pareça bem da maneira como vem ao mundo.
Maquilhagem, eh pá, tolera-se. Operações ao nariz, enfim. Somos nós que as pagamos a maior parte das vezes, ou então os pais, mas pronto. Agora, rapar as sobrancelhas? Quem é que olha para as sobrancelhas? (Abra-se aqui um parentesis para dizer que não arranjar as sobrancelhas não significa andar com dois esquilos por cima dos olhos.) O mais estranho nisto tudo, é que elas rapam as sobrancelhas para ficarem mais atraentes, mas depois têm a bela ideia de pintarem umas sobrancelhas falsas por cima.
Não sei o que é que vocês acham, mas a imagem duma mulher com sobrancelhas falsas e lábios pintados com aquele vermelho berrante, o cabelo armado com quilos de laca em cima e os óculos versão Amália assusta-me um bocado. Parecem um bando de clones. A mim assusta-me. Quando não parecem palhaços parecem travestis. É esta a ideia de sedução que querem transmitir?

29/03/12

TERMINUS 295: O QUE DIZER?

É um dia normal. Tal como em dias anteriores, o homem sai de casa de manhã cedinho para ir para o trabalho. Logo para começar bem o dia, o carro não pega. Verifica o combustível, o motor, o óleo; passados cinco minutos lá descobre o que se passa e consegue pôr o carro a trabalhar.
Como está muito em cima da hora, resolve seguir por outro trajecto para poupar caminho. Armado em bom porque tem um GPS comprado na feira, entra numa rua sem saída e fica lá bloqueado porque outros três otários, provavelmente com um GPS igual ao seu, entraram atrás dele e bloquearam-lhe a passagem.
Assim que sai dali, decide retomar o percurso e seguir o trajecto que fazia todos os dias. O grande problema é que ele costuma passar por ali bem mais cedo. À sua hora a estrada é dele, hoje fica meia hora no trânsito para aprender a não se armar em esperto. Por esta altura, é mais que certo que ele já não vai chegar a horas. Decide então, apesar do que aconteceu da última vez, meter-se por um atalho. E desta vez, felizmente, tem sorte: a rua tem saída. Infelizmente, um dos pneus arrebenta.
O homem sai do carro para mudar o pneu e nisto, já depois de terminado o serviço, aparecem três bacanos. Ora, três bacanos, em pleno Inverno, às 7:20 da manhã, numa rua deserta, só podem querer dizer duas coisas: ou vêm da discoteca ou vêm para gamar. Como não há discotecas ali na zona, o homem palpita que a segunda hipótese deve ser a mais viável.
Confirmando-lhe o palpite, os três fazem-lhe uma rodinha, limpam-lhe a carteira, dão-lhe uma bela carga de porrada e, quando o suplício parecia já ter chegado ao fim, há um deles que o manda despir-se. Naquele instante o homem fica dividido por sentimentos ambíguos. Por um lado fica triste por lhe estarem a roubar a roupa, por outro fica orgulhoso de haver quem aprecie o seu vestuário ao ponto de achar que é capaz de vender aquilo. Seja como for, o homem não tem outro remédio senão despir-se.
Um deles, simpático, deixa que ele fique com as meias calçadas. O homem agradece e logo de seguida atiram-no ao chão. Ainda lhe dói o corpinho do espancamento que levara há minutos. Contudo, assim que o primeiro rufia lhe salta para cima, não consegue deixar de sentir saudades por aqueles agradaveis momentos em que eram punhos e pés a atingi-lo e não outros membros. Depois de cada ter a sua vez, o homem é espancado novamente. É tipo o cigarrinho depois do acto. No fim, os três bacanos pegam na roupa e no dinheiro, acabam de trocar o pneu e vão-se embora com o carro.
O homem, cheio de dores, caído no meio da estrada, sem roupa, um autêntico farrapo humano, olha para o relógio comprado na feira. Além das meias, foi a única coisa que os meliantes lhe deixaram ficar. Chegar a horas, é para esquecer.
Este é um homem bem-educado, um homem que raramente diz asneiras. Mas se há momentos em que, mais do que saber bem, é necessário dizer um palavrão, este é um desses momentos. O homem levanta-se, olha para o céu ainda meio escuro, toma fôlego e está prestes a dizer a maior asneira que jamais proferiu quando repara que está uma criança de seis anos a olhar para ele. Depois de tudo o que lhe acontecera naquela manhã, não seria isso que o iria incomodar, e sim o facto da criança estar acompanhada dos pais. E também o facto do pai parecer mais um armário do que uma pessoa.
Naquela situação, com toda aquela raiva contida, o homem quer extravasar, quer gritar, só que, ao mesmo tempo, tem de se conter senão leva um enxerto ainda pior. E então, tudo o que ele consegue, tudo o que ele pode dizer é um inofensivo: “Eh pá... chiça!”


25/03/12

TERMINUS 294: DO ÁLCOOL

Pode não parecer, principalmente para quem já me viu a empurrar velhinhas para o meio da estrada, mas eu sou uma pessoa que gosta de ajudar o próximo. Tenho um amigo, o Leandro (estou a usar o seu nome verdadeiro porque é o único que ele tem e também porque ninguém o conhece e quem o conhece faz de conta que não o vê) que, vá-se lá saber porquê, mete-se na pinga. É bêbado. Diz que ninguém lhe liga. O que é mentira. Eu sei o que estou a dizer porque houve uma vez em que eu estava perto dele e alguém ligou-lhe por engano. Portanto, não só é bêbado, como é também um pouco mentiroso. Não me faltavam razões mais que evidentes para o ajudar. E assim fiz.
Falei com ele e chamei-o à atenção para o problema que tinha com a bebida. Dei-lhe o chamado 'abanão psicológico' e disse que ele tinha de procurar ajuda o quanto antes. Custou a convencer, mas lá aceitou entrar para os Alcoólicos Anónimos, onde encontrou o apoio que precisava para vencer o vício. Hoje em dia continuam a ignorá-lo, mas felizmente já não se mete no álcool. Infelizmente, agarrou-se às drogas leves.
Nada disto aconteceu, não tenho nenhum amigo chamado Leandro que seja alcoólico, nem tão pouco tenho um amigo chamado Leandro. Esta pequena e divertida história serviu só para facilitar a introdução do seguinte tema: Alcoólicos Anónimos. Podia ter começado logo por aí, mas achei que uma historieta chamaria mais à atenção.
Vamos lá ao tema. Há muita coisa que não percebo nos Alcoólicos Anónimos. A começar pelo princípio. Já repararam que a primeira coisa que uma pessoa faz quando chega a uma reunião dos Alcoólicos Anónimos é dizer o seu nome? Onde é que está o anonimato? De seguida diz que é alcoólico. É impressão minha ou toda a gente que está ali é alcoólica? Só se há pessoas que não têm o vício do álcool, mas sim o vício das reuniões. Pode ser isso. O que eu não percebo: para quê dizer os nomes?
É certo que, quando uma pessoa está alcoolizada, tem tendência para se esquecer das coisas. Nomeadamente, os nomes. Talvez faça parte do processo e quando começam a fixar os nomes é sinal de que estão no bom caminho.
E chega de tema principal. Não vamos abusar porque pode cair mal a algumas pessoas.
Para muitas pessoas o álcool é o fim, para outras pode ser o princípio de algo especial. E estando eu a escrever este artigo a três dias do Dia de São Valentim, achei que podia terminar este artigo com uma história romântica.
O álcool faz-nos divagar. Dá-nos a sensação de que sabemos tudo e mais alguma coisa. Desperta-nos a inteligência, por assim dizer. Esta é a história de um homem que lida com pessoas assim. Um homem com um raciocínio tão complexo que ninguém o compreende. Um homem que, apesar de ter objectivos em contrário, só poderia ser empregado de balcão.
No bar onde trabalha este homem entra uma mulher, desiludida consigo, com a sua vida e com a vida em geral. Senta-se e pede um uísque. Ao quarto copo, a camisa do homem que ela não conhece de lado nenhum passa a ostentar uma placa onde se lê "PSICÓLOGO". Encontrando ali um escape, a mulher começa a desbobinar. De vez em quando, o homem diz qualquer coisa, que pode ou não ter a ver com o que a mulher está a dizer.
A História Universal é rica em grandes pares famosos, disso não restam dúvidas, mas nenhum par possui a classe deste. De um lado, temos um empregado de balcão que ninguém compreende e que se julga muito sábio; do outro, temos uma mulher que não liga nenhuma a isso. É o par perfeito

22/03/12

TERMINUS 293: MEMÓRIAS DE ANDAR DE COMBOIO

Eu nunca disse isto a ninguém, mas eu gosto de andar de comboio. Antigamente gostava mais. Era mais barato. E costumava andar com mais frequência. Não só porque era mais barato, mas também porque precisava.
Estive a estudar durante um ano em Tomar e todas as segundas-feiras tinha de apanhar o Regional em Santa Apolónia. Vinha a casa passar o fim-de-semana e, todas as segundas, às nove e picos, lá estava eu à espera na estação. Era um ritual que se repetia todas as semanas e mesmo assim continuava a não fazer sentido a lenga-lenga que entoavam a cada partida. Eu prestava especial atenção àquela que dizia respeito ao comboio que pretendia apanhar, mas acontecia com os outros também.
Começava assim: "Dentro de minutos irá sair da linha número seis o comboio regional com destino a Tomar. Efectua paragens em todas as estações e apeadeiros do seu percurso." Até aqui nada de anormal. Depois vinha a parte estranha: "Informamos que não é permitida a entrada e saída de passageiros entre as estações Lisboa Santa Apolónia e Lisboa Oriente".
Ora bem... Para quem nunca andou de comboio entre estas duas estações, aqui vai um pequeno esclarecimento: à excepção dos suburbanos, nenhum outro comboio pára entre Lisboa Santa Apolónia e Lisboa Oriente. Os regionais não param de certeza. E o aviso é dado para todos os comboios, menos para o suburbano. Não faz muito sentido. O comboio não pára. Ou melhor, pára. Só que as portas são automáticas e não abrem.
E, mesmo que abrissem, o aviso continuaria sem fazer sentido. Aliás, ainda faria menos. Em primeirto lugar, como é que se proíbe um passageiro de entrar? Não é ser picuínhas, mas alguém só se torna passageiro depois de entrar! Quanto muito admito que quem está na estação possa ser considerado um "possível passageiro".
O aviso terminava com um inequívoco "É proibido saltar do comboio em movimento." Era este o aviso, a proibição. E às proibições, normalmente, estava associada uma multa. A pessoa saltava do comboio, morria e quem é que pagava? Nunca cheguei a saber porque nunca ninguém saltou.
Eu compreendia, apesar de algumas partes fazerem pouco sentido, a necessidade de avisar os passageiros. Mas porquê fazer este aviso apenas entre estas duas estações? Eu não sabia se isto acontecia nos restantes percursos por este Portugal fora - hoje em dia, com tanta linha a encerrar, de certeza que acontece menos -, mas fazia-me confusão não deixarem saltar passageiros apenas nestas duas estações. Será que nas restantes estações do percurso já era permitido saltar do comboio em movimento? Será que o número de saltos que se podiam fazer estava ligado ao tipo de comboio e à classe na qual viajávamos? Como seria ao fim-de-semana e feriados? As crianças, idosos, mulheres grávidas e pessoas com deficiência teriam regalias?
Tudo perguntas para as quais nunca consegui resposta.
Quando era pequeno, os meus pais costumavam-me dizer sempre: "Tem cuidado. Anda sempre na linha, senão a gente chateia-se." E eu tentei sempre cumprir essa regra. Até que, ao fim de várias vezes de ser quase atropelado por um comboio, percebi que às vezes é melhor andar fora da linha.
Felizmente para a minha integridade física, eu tive este raciocínio, mas muitos não conseguiram fazer o mesmo. A quantidade de pessoas que morrem atropeladas nas linhas-férreas não é por acidente, suicídio ou seja lá o que for. Eles são atropelados porque levam tudo à letra e porque têm pais autoritários e temem mais ficar de castigo do que serem atropelados por um Intercidades a caminho da Guarda.

19/03/12

TERMINUS 292: UM GOVERNO DE POUCOS AMIGOS

Ao fim de sete meses de mandato é tempo de comparar o desempenho do Governo de Passos Coelho com os dois Governos de José Sócrates. Os números levantados, para o bem e para o mal, revelam verdades incómodas para o Governo PSD/CDS-PP. De acordo com o Diário da República, durante o período em questão, o executivo PSD/CDS-PP, liderado por Pedro Passos Coelho, nomeou 1110 pessoas para funções no sector público. Menos 568 pessoas do que no primeiro Governo de José Sócrates e menos 667 do que no segundo.
Há uma clara diferença entre o que o Governo afirma e o que os outros dizem. Em primeiro lugar, quem faz uma afirmação aparenta possuir mais fundamento do que quem se limita a dizer. Habitualmente, essa diferença é para menos: o Governo gasta menos dinheiro que, o Governo faz menos pior que; no caso das nomeações sucede o oposto: o Diário da República diz que o Governo nomeou 1110 funcionários, o Governo afirma que que foram 1682. De onde aparecem estes 572 funcionários de diferença não se sabe ao certo. Dá ideia que o Governo foi para a rua e começou a nomear os primeiros que apareceram.
À primeira vista, e estando nós em ambiente de austeridade, contenção, rigor, etc., esta deveria ser uma boa notícia. O Governo está a contratar menos, logo está a poupar mais. Por associação de ideias, quase que se pode propor a seguinte teoria: se o Governo tem menos a quem pagar, então poderá pagar mais a quem trabalha. Um leigo tenderia a ver esta questão considerando apenas os seus aspectos (aparentemente) positivos.
Todavia, este desempenho do Governo de Passos Coelho não se trata de nenhum melhoramento, antes pelo contrário. Passos Coelho nomeou menos 33,8% do que Sócrates. Quer isto dizer que Sócrates tinha mais amigos por onde escolher do que tem Passos Coelho. E recordando o feitio de Sócrates, isto diz muito do actual Primeiro-Ministro. O que se tenta passar para a comunicação social como um esforço de contenção é, na verdade, um sinal inequívoco de que Passos Coelho tem poucos amigos.

16/02/12

TERMINUS 291: "SEMPRE EM FRENTE"

Olá. Anda a acontecer tanta coisa no nosso país e no mundo que eu não podia continuar sem manifestar a minha opinião. Houve quem viesse ter comigo e me perguntasse o que é eu achava disto ou daquilo. E eu, muito prontamente, respondi: detesto que me peçam orientações. Ficaram a olhar para mim sem perceber do que é que eu estava a falar. Eu ignorei-os e continuei na minha.
Detesto que me peçam orientações. (Sim, é a mesma frase de há pouco.) Se for em sentido figurado, tipo conselho, não tenho problema nenhum em dar. Desde que saiba, claro. O que me irrita é ter que dar orientações geográficas. Não é por não querer ajudar, é porque as pessoas nunca ficam contentes, genuinamente contentes, a não ser que se termine a explicação duma certa maneira.
A pessoa que estava comigo acabou de sair. Ainda bem.
De certeza que já vos aconteceu irem na rua, descansadinhos da vida, e, de repente, alguém parar o carro ou aproximar-se de vocês e perguntar como é que se vai para determinado sítio. Nunca vos aconteceu? Pois... Se calhar com outro penteado...
Mas imaginem que acontece. Imaginem que alguém se aproxima de vocês e vos pergunta como que se vai para a Rua das Petingas ao Sol e que vocês sabem o caminho do sítio onde estão até à Rua das Petingas ao Sol. Só que vocês não se limitam a saber UM caminho, vocês sabem o melhor caminho de todos, o mais rápido, o mais agradável. E explicam; até usam gestos e slides e tudo o mais.
Quando terminam, reparam que a pessoa que vos pediu orientação está a olhar para vocês com uma expressão de desprezo, como se vocês não a tivessem ajudado em nada. Pelo contrário. É o tipo de expressão que se lança a alguém que nos chacinou a família. Nem vale a pena pensar num "obrigado".
Muita gente não sabe disto, provavelmente porque nunca esteve numa situação destas, mas existe uma maneira muito simples de indicar o caminho a qualquer pessoa sem que essa pessoa fique mal encarada: sempre em frente. Experimentem.
"Vira na primeira à direita, depois na segunda à esquerda, atravessa a estrada e entra numa rua transversal. Corta outra vez à direita e na terceira à esquerda. Anda dois quarteirões até ver um terreno de terra batida. Vira logo na primeira à direita e, depois, é sempre em frente."
Tivesse este exemplo de orientação terminado com "Depois é logo na primeira à direita." e seriam ignorados e repudiados. O "sempre em frente." faz de vocês uns bons cidadãos, amigos de ajudar. O necessitado agradece e vai à sua vida. Não importa o que ele tenha de andar para chegar até onde precisa. As palavras "sempre em frente" dão-lhe alento e convencem-no que é possível.
No fundo, é o que todos nós queremos: que nos indiquem o caminho. Mas, acima de tudo, queremos que não se limitem a dizer o que é preciso para chegar lá. Queremos que o façam de forma a que nos sintamos motivados a trilhá-lo. Terminem com um "sempre em frente". Se não vamos repudiar-vos. Ainda mais.

09/02/12

TERMINUS 290: A MODERNIDADE DOS NOVOS PECADOS


Eu sou alguém que acha que a Igreja Católica é uma instituição parada no tempo. Todavia, sou também alguém capaz de assumir um erro quando tal é necessário. Aqui há tempos li um artigo que dava conta duma tentativa de adaptação da Igreja Católica aos costumes do século XXI. É refrescante ver que, apesar de manter certas tradições, os responsáveis da Igreja Católica não fecham a porta a alguma inovação.
Entre as várias medidas anunciadas está a renovação do catálogo de pecados do Vaticano. E é aqui que as coisas se complicam. Se é verdade que a expressão "catálogo" invoca uma certa imagem comercial  e, como tal, moderna, também é verdade que alguns dos novos pecados são uma contradição em si mesmos. O que, agora que penso nisso, não é isso tão contraditório com muito do que a Igreja Católica tem feito ao longo dos séculos.
Do novo catálogo de pecados fazem parte:
Os atentados contra o ambiente. É de louvar tentarem ajudar o meio ambiente mas, por favor, não acendam velas à Nossa Senhora para reparar a camada de ozono.
O consumo abusivo de drogas. Eu não vejo isto como um não firme ao uso de drogas, vejo mais como um "usem, mas não abusem". Podem pecar, mas só um bocadinho.
As experiências com células estaminais. Retirar uma parte de um outro ser humano para criar outro é errado. Lembrem-se do Adão.
A fecundação medicamente assistida. Esta concordo plenamente. Se estiver a fecundar não quero ter nenhum médico a assistir. Há alturas em que aprecio a assistência dum médico: esta não é uma delas.
Comportamentos que contribuam para aumentar o fosso entre ricos e pobres. Exemplo desse comportamento: ser dono duma cidade, ter um ceptro de ouro cheio de pedras preciosas e roupa de sede debruada a ouro e pedir aos fiéis pobres que não abracem os bens materiais.
Passar demasiado tempo a ler jornais, ver televisão ou a navegar na Internet. Por outras palavras, é pecado estar sem fazer nada quando se pode estar a rezar.
Por tudo isto, penso que é seguro dizer: bem vindos ao século XX!

06/02/12

TERMINUS 289: SÁ CARNEIRO

Parece que é mesmo desta que a investigação ao Caso Camarate vai mesmo até ao fim. Desta vez, não vão haver enrolanços e silêncios mudos. A verdade dos factos vai ser apurada, doa a quem doer. Cabeças vão rolar. O que muitos julgavam esquecido vai ser revelado e a sociedade portuguesa vai saber finalmente o que aconteceu a 4 de Dezembro de 1980.
Entretanto, no país real...
Já me cansa ouvir falar nisto. Será que os nossos políticos não conseguem arranjar outra cortina de fumo mais interessante que esta? Todos nós já percebemos que isto é um cortina de fumo, mas é uma cortina tão ténue que mais valia não lá estar. Fingirem que, passados mais de trinta anos, ainda há algo para apurar é idiota. E mais idiotas são se acreditarem mesmo que vão apurar o que seja.
Não é que não me interesse saber quem matou Sá Carneiro. Claro que gostava de saber. Só que o meu interesse pela verdade do atentado de Camarate não tem nada a ver com simpatias políticas. Gostava de saber quem matou o Sá Carneiro, assim como gostava de saber quem matou o JR no Dallas. O mistério é mais ou menos o mesmo, mas na série eles levaram a coisa mais a sério. Sabiam que o mistério só podia ser mantido durante algum tempo, depois disso perdia o interesse.
Saíndo da ficção para a realidade, podemos comparar, mal comparado, o assassinato de Sá Carneiro com o assassinato de Kennedy. Ainda há quem acredite que não foi Lee Harvey Oswald quem matou Kennedy - e ainda bem para a ficção -, mas para a maioria da população o assunto está arrumado. Oswald matou Kennedy e Jack Ruby matou Oswald. Arrumado o assunto, agora fazem filmes em que abordam outras possibilidades; incluíndo outras mais reais do que aquela oficialmente reconhecida.
Em Portugal, continuamos a tentar vestir uma situação com diferentes possibilidades quando o que deveríamos fazer era arranjar um toinas qualquer e dizer que foi ele. Nem precisa de ser alguém que esteja vivo. Vou fazer aqui uma sugestão para os actuais responsáveis da investigação sobre o Caso Camarate.
Um dos investigadores vai à terra natal de Sá Carneiro e resolve visitar a escola secundária frequentada por Sá Carneiro. Durante uma visita à secretária, aproveita quando a única funcionária que ainda lá está tem de ir fazer serviço de limpeza para dar uma espreitadela aos arquivos. Ao verificar os arquivos do ano em que Sá Carneiro concluiu o ensino secundário, descobre que este teve uma quezília com um colega de turma sobre quem jogava melhor à bola.
O investigador toma nota do nome desse colega e segue essa pista. Descobre que o colega também queria ter entrado para o mesmo curso de Direito que Sá Carneiro, mas não conseguiu porque Sá Carneiro ocupou a última vaga que havia. Esta rivalidade continuou por muitos anos, tendo tido apenas um intervalo quando o tal colega foi chamado para a guerra.
Regressado da Guiné, tudo o que colega queria era esquecer o passado. Nisto dá-se o 25 de Abril e o colega fica contente. Anos depois, Sá Carneiro torna-se Primeiro-Ministro de Portugal e o colega passa-se dos carretos. Constrói uma bomba e consegue colocá-la no Cessna que Sá Carneiro vai utilizar.
Meses depois da explosão, decide fazer uma visita à sua terra natal e descobre que o Sá Carneiro que matou não era o seu colega de escola, mas um outro Sá Carneiro que ele não conhecia de lado nenhum. Furioso por este Sá Carneiro tê-lo feito matar o Primeiro-Ministro puxa duma pistola e dispara. Sá Carneiro (o rival, não o político) cai da ravina abaixo, mas não sem antes agarrar o seu assassino pelo casaco e levá-lo consigo para o fundo da Boca do Inferno.
E assim é encontrado o assassino de Sá Carneiro. Agora pode-se encerrar o caso e começar-se a fazer filmes sobre isso. Entretanto, se precisarem de ideias para novas vítimas de atentado, podem contactar-me que eu tenho uma listinha.

03/02/12

TERMINUS 288: SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS

Demorei, mas consegui finalmente perceber o que une e diferencia Pedro Passos Coelho de António José Seguro. O primeiro é Secretário-Geral do Governo Alemão, o segundo é o senhor que não diz nem não nem sim com uma violência que assusta. Mas isto já eu sabia. A minha descoberta, se assim se pode dizer, vai um pouco mais longe e tem que ver com o local onde o líder da oposição, o senhor Seguro, lança as suas farpas ao líder do Governo, o senhor Merkel, perdão, Coelho.
Tal como Passos Coelho, António José Seguro escolhe fazer muitas das suas declarações durante almoços de convívio. As semelhanças acabam aqui. Na verdade, muitos políticos (e não só) escolhem fazer declarações durante almoços de convívio. Almoços ou jantares. Entenda-se aqui qualquer encontro que envolva vinho. Eu não faço ideia se Seguro bebe vinho ou qualquer outro bebida alcoólica, mas eu já estive em muito almoço e muito jantar de convívio e sei como é que as coisas se proporcionam.
Recordo que, no tempo em que era um simples aspirante a líder da oposição, Passos Coelho aconselhou o regresso ao nuclear. Achar que em Portugal, cuja justiça atribuiu a queda da Ponte Hintze Ribeiro a causas naturais e não a má manutenção, há condições de ter uma central nuclear foi uma ideia idiota. A diferença é que Passos disse isto num almoço e no almoço seguinte, mesmo que não tenha repetido a ideia, pelo menos não a contradisse. Seguro, ao contrário do que o nome indica, não demonstra essa segurança. Ou melhor, tenta demonstrar diferentes tipos de segurança conforme a zona onde está. Se está num almoço em Baião, a sua posição é sim; se está num jantar na Lousada, a sua posição é não.
Estas mudanças de posição consoante o eleitorado com que se está não são nada de novo. Faz parte de ser político dizer e ser aquilo que o eleitorado quer. O problema é quando se tenta iludir as pessoas com isso. Eu acredito na liberdade de escolha, mas também acredito que há matérias cuja decisão não pode ser submetida a vontade popular. O caso da redução do número de freguesias é o grande exemplo disso. Todos concordam que tem de ser feito. Desde que não seja no seu concelho.
Como líder (vá lá) da oposição, Seguro cumpre bem o seu papel de instigar a insurreição dos principais interessados em que as coisas fiquem exactamente como estão: os autarcas e os bairristas. Se perguntarmos a um presidente se está disposto a abandonar o cargo e a perder todas as regalias que tem, a resposta óbvia é "Não, porque isso coloca em causa a representatividade democrática."
O argumento da representatividade democrática é recorrente e foi utilizado, recordo, por todos os partidos com assento parlamentar da última vez que se discutiu a redução do número de deputados. Todos concordavam que era necessário reduzir e/ou cortar com gastos supérfluos... nos outros partidos; fazer isso no seu partido poderia pôr em causa a representatividade democrática.
Já disse e afirmo que, apesar de gostar muito da minha terra, entendo que certos tempos obrigam a certas medidas. Posso discordar, mas percebo que seja um mal necessário por decisões mal tomadas anteriormente. Lamento as circunstâncias que forçam certas posições, mas lamento mais ainda que essas posições sejam manipuladas para fins políticos.
Eu acho que o que importa mais às pessoas é o nome da sua freguesia. Na prática, a junção de duas ou mais freguesias não acaba com o nome de nenhuma delas. Deixam de ser freguesias, passam a ser bairros. Quem vive lá sabe onde começa o seu bairro, a sua freguesia, e onde acaba.
Voltando ao Lord Abstenção Violentíssima e ao Marquês do Funaná, estes dois homens estão apenas separados pela posição que ocupam. O que Seguro é na oposição, a dizer uma coisa e o seu contrário, não é muito diferente daquilo que Passos era. A diferença, como já disse, era que Passos conseguia ser mais discreto e não se contradizer no próprio dia.
Um político não diz aquilo que as pessoas precisam de ouvir, diz aquilo que as pessoas querem ouvir e isso obriga-os, por vezes, a darem ouvidos ao que elas dizem. Passos Coelho pode ter errado ao confiar na capacidade dos portugueses em gerir energia nuclear, mas Seguro também não está muito bem ao deixar que a decisão de "sim" ou "não" seja tomada por aqueles para quem o "sim" é a única resposta possível.
Termino com uma ressalva. Considerando todos os aspectos bons e maus da junção de freguesias, há um bom que me salta à vista e que é a oportunidade que algumas pessoas têm de dar um nome diferente ao sítio onde vivem. Pensem nisso, habitantes de Angeja, Eucísia, Gebelim, Soeima, Anelhe, Palaçoulo, Duas Igrejas, Genísio, Guisande, Sanjurge, Gançaria, Tó, Trouxemil, Caveira, Carapelhos, Cuide de Vila Verde, Porto da Carne, Ramela, Irivo, Fojo Lobal e Urra, entre muitos outros. E quem achar que eu estou a troçar destas freguesias e dos seus habitantes, informo que sou residente na freguesia da Baixa da Banheira, concelho da Moita. Estou pronto para as vossas piadas.

31/01/12

TERMINUS 287: AO LADO DO POVO

Aqueles que achavam que Cavaco Silva não possuía legitimidade para representar a maioria dos portugueses devem estar agora à procura dum novo candidato ao cargo de representante sem legitimidade. Muito se tem falado das declarações de Cavaco Silva quanto às suas reformas e dos esclarecimentos relativos a essas mesmas reformas. (Acredito que alguém possa ter utilizado como desculpa qualquer coisa como "O que senhor Presidente da República quis dizer foi que se ainda estivesse vivo daqui a dez anos, a sua reforma de hoje não iria chegar para essas despesas".) O que ainda pouco ou nada se falou foi na verdade nas palavras de Cavaco Silva.
Há razões para questionar a legitimidade de Cavaco Silva em se proclamar Provedor do Povo e depois dizer que cerca de dez mil euros por mês não lhe dão para as despesas? Não, não há. Nem sequer há falta de coerência entre uma posição e outra conforme passarei a demonstrar com três simples, mas bem fundamentados, exemplos.
Segundo a lógica eleitoral, Cavaco Silva foi eleito pela maioria dos portugueses e a maioria dos portugueses, como todos sabemos, está insatisfeita com o seu vencimento, seja ele salário, pensão ou reforma. Ao dizer que a sua reforma não chega para as despesas, Cavaco Silva está apenas a colocar-se ao lado daqueles que representa. Mas há mais.
Cavaco Silva não sabe comer de boca fechada. Consta que Paula Bobone terá dito uma vez que a maioria dos portugueses não se sabe comportar à mesa. Exemplo de mau comportamento à mesa: comer de boca aberta. Mais uma vez, Cavaco Silva está do lado daqueles que o elegeram.
Para terminar, ninguém pode negar que Cavaco Silva é uma pessoa segura do que diz. Nunca se engana e raramente tem dúvidas. É alguém que insiste no erro, apesar de nunca o admitir. Exactamente como faz um burro teimoso ou, se me permitem, como fizeram aqueles que o reelegeram.
Por tudo isto, Cavaco Silva tem toda a legitimidade para nos continuar a representar. Infelizmente.

26/01/12

TERMINUS 286: CRIAÇÃO

Os últimos tempos têm-se revelado atribulados, embora muito compensadores. Quem me conhece sabe que não sou um praticante regular de exercício físico. Tirando uma caminhada ou outra que faço com prazer (seja por estar num sítio novo, seja por não querer esperar que o autocarro chegue), não desempenho muitos esforços físicos. É certo que não me limito só às caminhadas, mas como é suposto este blogue não ter conteúdos susceptíveis de ferir sensibilidades, limitemos-nos a considerar essa actividade que é andar a pé. 
 Tenho feito longos passeios com a minha cara-metade um pouco por todo o lado e, no regresso a casa, aquilo de que me apercebo com mais evidência é o fervilhar de ideias que povoam a minha mente. Não pretendo dizer com isto que é o exercício físico - seja ele qual for - que origina essas ideias. Na minha opinião elas estão lá sempre, são possibilidades de histórias e de temas que surgem da infinidade de combinações possíveis entre tudo aquilo que vemos e ouvimos. O exercício físico limita-se a pegar em alguns desses ingredientes e combiná-los numa fórmula que se espera nova.
A prática é o melhor professor e tenho aprendido muito nos últimos tempos sobre o meu processo criativo. Continuo a ter as minhas falhas, mas é impossível não as ter. Escrever não é fazer contas. Por mais que leia sobre construção de personagens ou sobre estrutura ou sobre diálogo, por muito que aquilo que eu escreva cumpra todas as regras duma boa história, por muito que seja uma boa história, a verdade é que o leitor poderá discordar. Sobre o meu processo criativo propriamente dito, aprendi que... basta uma imagem. É tudo o que preciso para começar.
No próximo mês de Fevereiro irei publicar o meu primeiro romance: Um Cappuccino Vermelho. A história deste livro, perdão, a história por detrás deste livro, começou com uma miúda com quem eu me cruzei no Metro. O aspecto dela e a sua postura combinaram-se com o que ia na minha mente e as rodas começaram a trabalhar. Neste caso, como eu já andava à procura duma ideia, ela limitou-se a ser a catalisadora. Com o livro seguinte - A Imagem - o processo foi muito mais cru e envolveu uma caminhada.
Ao fazer um passeio habitual, olhei para o muro branco duma propriedade privada, um muro extenso e alto, e pensei como seria se surgisse ali uma imagem do nada? E se essa imagem só pudesse ser vista por uma pessoa? E se essa imagem ganhasse vida? E quem seria essa pessoa? Porque razão é que a imagem apareceria somente para ela? De onde vinha a imagem?
A escrita de Um Cappuccino Vermelho tem a marca clara duma primeira obra e eu percebo isso não tanto na história, mas no modo como a história surgiu. Lembro-me o quão difícil era continuar a escrever depois da frustração que havia sido o dia anterior. Estava a dar os meus primeiros passos na escrita a sério e fartei-me de cair. Felizmente levantei-me e continuei a andar.
Sei que cresci dum livro para o outro, mas era impossível isso não acontecer. Afinal, cerca de sete anos separam Um Cappuccino Vermelho de A Imagem. E o tempo tornou-se um grande mestre. Estas duas histórias, apesar de ligadas tematica e narrativamente, foram desencadeadas por processos criativos radicalmente diferentes. Aquando do primeiro livro, eu andava à procura de ideias e quando esta surgiu o processo de escrita foi árduo, mas compensador no fim; já no segundo, andava tão ocupado com tanta coisa que nem pensava sequer em pensar em escrever um livro. Acontece que a criatividade não se importa com a falta de tempo. As ideias aparecem quando têm de aparecer, tenhamos nós tempo para as desenvolver ou não.
Eu não tinha tempo, mas estava curioso. Queria saber mais sobre A Imagem, sobre essa história que tomava prioridade sobre tudo o resto com que eu me deveria preocupar. Não tinha tempo, mas arranjei-o (se tal coisa é possível) porque queria saber onde é que a história ia. Tal como numa caminhada, foi um processo longo, embora não exaustivo. Ao contrário de Um Cappuccino Vermelho, em que eu tinha uma ideia rudimentar do que seria o final da história, a caminhada, perdão, escrita de A Imagem fez-se sem objectivo final. Assim como não sabia de onde a ideia surgia, também desconhecia para onde se dirigia. O mesmo acontece quando se faz uma caminhada: saber onde vamos terminar não é tão estimulante quanto partir rumo ao desconhecido.