31/01/12

TERMINUS 287: AO LADO DO POVO

Aqueles que achavam que Cavaco Silva não possuía legitimidade para representar a maioria dos portugueses devem estar agora à procura dum novo candidato ao cargo de representante sem legitimidade. Muito se tem falado das declarações de Cavaco Silva quanto às suas reformas e dos esclarecimentos relativos a essas mesmas reformas. (Acredito que alguém possa ter utilizado como desculpa qualquer coisa como "O que senhor Presidente da República quis dizer foi que se ainda estivesse vivo daqui a dez anos, a sua reforma de hoje não iria chegar para essas despesas".) O que ainda pouco ou nada se falou foi na verdade nas palavras de Cavaco Silva.
Há razões para questionar a legitimidade de Cavaco Silva em se proclamar Provedor do Povo e depois dizer que cerca de dez mil euros por mês não lhe dão para as despesas? Não, não há. Nem sequer há falta de coerência entre uma posição e outra conforme passarei a demonstrar com três simples, mas bem fundamentados, exemplos.
Segundo a lógica eleitoral, Cavaco Silva foi eleito pela maioria dos portugueses e a maioria dos portugueses, como todos sabemos, está insatisfeita com o seu vencimento, seja ele salário, pensão ou reforma. Ao dizer que a sua reforma não chega para as despesas, Cavaco Silva está apenas a colocar-se ao lado daqueles que representa. Mas há mais.
Cavaco Silva não sabe comer de boca fechada. Consta que Paula Bobone terá dito uma vez que a maioria dos portugueses não se sabe comportar à mesa. Exemplo de mau comportamento à mesa: comer de boca aberta. Mais uma vez, Cavaco Silva está do lado daqueles que o elegeram.
Para terminar, ninguém pode negar que Cavaco Silva é uma pessoa segura do que diz. Nunca se engana e raramente tem dúvidas. É alguém que insiste no erro, apesar de nunca o admitir. Exactamente como faz um burro teimoso ou, se me permitem, como fizeram aqueles que o reelegeram.
Por tudo isto, Cavaco Silva tem toda a legitimidade para nos continuar a representar. Infelizmente.

26/01/12

TERMINUS 286: CRIAÇÃO

Os últimos tempos têm-se revelado atribulados, embora muito compensadores. Quem me conhece sabe que não sou um praticante regular de exercício físico. Tirando uma caminhada ou outra que faço com prazer (seja por estar num sítio novo, seja por não querer esperar que o autocarro chegue), não desempenho muitos esforços físicos. É certo que não me limito só às caminhadas, mas como é suposto este blogue não ter conteúdos susceptíveis de ferir sensibilidades, limitemos-nos a considerar essa actividade que é andar a pé. 
 Tenho feito longos passeios com a minha cara-metade um pouco por todo o lado e, no regresso a casa, aquilo de que me apercebo com mais evidência é o fervilhar de ideias que povoam a minha mente. Não pretendo dizer com isto que é o exercício físico - seja ele qual for - que origina essas ideias. Na minha opinião elas estão lá sempre, são possibilidades de histórias e de temas que surgem da infinidade de combinações possíveis entre tudo aquilo que vemos e ouvimos. O exercício físico limita-se a pegar em alguns desses ingredientes e combiná-los numa fórmula que se espera nova.
A prática é o melhor professor e tenho aprendido muito nos últimos tempos sobre o meu processo criativo. Continuo a ter as minhas falhas, mas é impossível não as ter. Escrever não é fazer contas. Por mais que leia sobre construção de personagens ou sobre estrutura ou sobre diálogo, por muito que aquilo que eu escreva cumpra todas as regras duma boa história, por muito que seja uma boa história, a verdade é que o leitor poderá discordar. Sobre o meu processo criativo propriamente dito, aprendi que... basta uma imagem. É tudo o que preciso para começar.
No próximo mês de Fevereiro irei publicar o meu primeiro romance: Um Cappuccino Vermelho. A história deste livro, perdão, a história por detrás deste livro, começou com uma miúda com quem eu me cruzei no Metro. O aspecto dela e a sua postura combinaram-se com o que ia na minha mente e as rodas começaram a trabalhar. Neste caso, como eu já andava à procura duma ideia, ela limitou-se a ser a catalisadora. Com o livro seguinte - A Imagem - o processo foi muito mais cru e envolveu uma caminhada.
Ao fazer um passeio habitual, olhei para o muro branco duma propriedade privada, um muro extenso e alto, e pensei como seria se surgisse ali uma imagem do nada? E se essa imagem só pudesse ser vista por uma pessoa? E se essa imagem ganhasse vida? E quem seria essa pessoa? Porque razão é que a imagem apareceria somente para ela? De onde vinha a imagem?
A escrita de Um Cappuccino Vermelho tem a marca clara duma primeira obra e eu percebo isso não tanto na história, mas no modo como a história surgiu. Lembro-me o quão difícil era continuar a escrever depois da frustração que havia sido o dia anterior. Estava a dar os meus primeiros passos na escrita a sério e fartei-me de cair. Felizmente levantei-me e continuei a andar.
Sei que cresci dum livro para o outro, mas era impossível isso não acontecer. Afinal, cerca de sete anos separam Um Cappuccino Vermelho de A Imagem. E o tempo tornou-se um grande mestre. Estas duas histórias, apesar de ligadas tematica e narrativamente, foram desencadeadas por processos criativos radicalmente diferentes. Aquando do primeiro livro, eu andava à procura de ideias e quando esta surgiu o processo de escrita foi árduo, mas compensador no fim; já no segundo, andava tão ocupado com tanta coisa que nem pensava sequer em pensar em escrever um livro. Acontece que a criatividade não se importa com a falta de tempo. As ideias aparecem quando têm de aparecer, tenhamos nós tempo para as desenvolver ou não.
Eu não tinha tempo, mas estava curioso. Queria saber mais sobre A Imagem, sobre essa história que tomava prioridade sobre tudo o resto com que eu me deveria preocupar. Não tinha tempo, mas arranjei-o (se tal coisa é possível) porque queria saber onde é que a história ia. Tal como numa caminhada, foi um processo longo, embora não exaustivo. Ao contrário de Um Cappuccino Vermelho, em que eu tinha uma ideia rudimentar do que seria o final da história, a caminhada, perdão, escrita de A Imagem fez-se sem objectivo final. Assim como não sabia de onde a ideia surgia, também desconhecia para onde se dirigia. O mesmo acontece quando se faz uma caminhada: saber onde vamos terminar não é tão estimulante quanto partir rumo ao desconhecido.

15/01/12

TERMINUS 285: CHAMEM A POLÍCIA

O que fazer quando somos vítimas de um roubo? Para o cidadão comum, a resposta mais óbvia e legalmente exequível é: chamar a polícia. Esta hipótese só não se coloca quando o roubo tem a designação de taxa ou imposto. Mas, o que fazer quando, em vez de cidadãos comuns, os meliantes atacam a própria polícia? A quem é que a polícia pede auxílio?
Os soldados do posto da GNR de Quarteira estão às voltas com o desaparecimento do cofre onde é guardado o dinheiro recolhido das multas. Perto de 1500€ sumiram sem deixar rasto. O meu conselho seria chamarem a polícia, mas talvez não seja grande ideia.
O tenente-coronel Sequeira, porta-voz do Comando da GNR de Faro anunciou o início da realização de “diligências internas para tentar apurar o que aconteceu.” Aprecio a honestidade do tenente-coronel Sequeira. Não se compromete com um resultado concreto, apenas promete tentar. Se falhar, não o poderemos criticar; quanto muito, podemos dizer “Devias ter tentado um pouco mais.”
As diligências internas são como uma espécie de inquérito, esse jargão mítico das declarações sem conteúdo. Na prática, dizer que se vão realizar “diligências internas para tentar apurar o que aconteceu” é o mesmo que dizer “Vamos perguntar ao pessoal da esquadra se viu alguma coisa. Se alguém disser que sim, óptimo; senão, depois logo se vê.”
Piadas à parte, o tenente-coronel Sequeira possui uma qualidade que eu aprecio bastante num representante da autoridade: a ponderação. Não estou a brincar agora. O tenente-coronel Sequeira é um homem ponderado, um homem que analisa a situação de forma rigorosa antes de proferir a sua opinião. No caso em concreto, um cofre desapareceu do posto da GNR. Para mim, que sou um cidadão comum, parece-me um roubo; para o tenente-coronel Sequeira pode não ter sido, pode ter sido qualquer outra coisa, não necessariamente um crime.
“Estamos a tentar perceber se houve comportamento criminal,” disse o próprio e com razão. O desaparecimento do cofre pode não ter sido roubo, assalto, furto, levamento, gatunagem, pilhagem, saque ou pilharia: pode ter sido um truque de magia. Pode ter sido levado por extraterrestres. Pode ter sido uma brincadeira parva. Pode ter sido muita coisa. Considerando que se trata de um roubo, eu inclino-me a dizer que foi um roubo que aconteceu, mas talvez eu seja uma pessoa de perspectivas limitadas.

13/01/12

TERMINUS 284: SERVIÇO PÚBLICO COMPENSATÓRIO

A segunda semana deste mês de Janeiro começa com a notícia de indemnizações compensatórias no valor de 127 milhões de euros para as empresas CP, Metropolitano de Lisboa e Refer por serviços públicos prestados em 2011. Chama-me à atenção a palavra “compensatória”, sinónimo de retribuição, de equidade, de justiça. Estas empresas, além de cobrarem ao cidadão pelo serviço público que prestam, são indemnizadas pelo Estado como se esse serviço, esse, tantas vezes, mau serviço devesse ser desculpado em vez de punido.
Leio esta notícia e vem-me à ideia a história fictícia, real em muitas casas, do marido que passa a vida a agredir a mulher e esta, em vez de se defender, defende-o, porque é ele que traz o dinheiro.
O caso das empresas públicas de transporte é diferente. O Estado autoriza-as a operar em território nacional, autoriza-as a cobrar o valor que considerem adequado ao serviço que prestam. Mas isto, pelos vistos, não basta. É preciso ajudar mais e mais e mais. O problema é que o Estado são os utentes e os não utentes.
Segundo dados da própria empresa, dados rigorosos portanto, o Metropolitano de Lisboa perdeu 11,5 milhões de euros em 2009 em passageiros que viajaram sem utilizar bilhete. Fazendo as contas aos 0,90 cêntimos que um bilhete custava então, ficamos com um número equiparado à população residente em Portugal continental. Será que é por estes passageiros ilegais que o Estado indemniza estas empresas? Interrogo-me como é que este cálculo é feito. Como é que se distingue o passageiro autorizado do não autorizado sem ser pela fiscalização? E se o fiscal o identifica, porque não lhe cobra o dinheiro em falta? Será que os identificam só para as estatísticas e depois os mandam embora, sabendo que depois podem cobrar ao Estado com juros?
Quem espera pelo comboio nas plataformas, há-de reparar que o senhor que anuncia a chegada do comboio refere-se às pessoas na estação como passageiros. Ora, o cidadão só passa a passageiro quando entra na carruagem; até lá é apenas utente. Ou talvez não. Quando o Estado decide indemnizar estas empresas pelo serviço público que prestam, podemos dizer que passageiros são todos, até mesmo aqueles para quem o comboio é algo que já passou.

10/01/12

TERMINUS 283: "VOLTO JÁ"

Há alguns milhares de anos, biliões para as pessoas sensatas, Deus criou o Universo e a Terra e todos os seres vivos em menos de uma semana. Hoje em dia, os seus fiéis andam às voltas por não haver dinheiro para manter as portas abertas. O fecho das igrejas durante a semana é o tipo de notícia que leva a população a um tipo de insurreição esperada, embora lamentável em pleno século XXI. Não me surpreende, apesar de tudo, que este Estado dito laico aceite obedecer à voz do povo que pede ajuda para esta instituição.
Ignorando que esta instituição supostamente representa uma entidade que criou tudo e mais alguma, uma entidade omnisciente, omnipresente e omnipotente, consideremos apenas a parte terrena da matéria. A Igreja Católica é rica. Podre de rica. E não é em sonhos e coisas bonitas, é em ouro e outros materiais preciosos. Os portugueses que em casa passam fome, na rua pedem dinheiro, não para comprarem comida, mas para terem as igrejas abertas para irem lá rezar por dias melhores. O respeito pela fé alheia não me impede de atestar a idiotice de certas mentalidades.
O patrão das igrejas, o senhor Papa, vive num palácio, tem uma cidade particular, desloca-se num carro construído apenas para ele, veste roupas de seda debruadas a ouro, sapatos italianos feitos em exclusivo para sua santidade e um ceptro cravado de jóias. Este tipo tem o desplante de pedir aos seus fiéis que não abracem as riquezas materiais e o Estado é que tem dar dinheiro para ele manter as portas abertas?
Quando um negócio não vai bem, há que fechar lojas ou, então, procurar novas estratégias, novos públicos. Abrir as portas somente quando há missas para realizar não é uma situação que justifique indignação. Católicos, tentem isto ver como um “volto já” prolongado. Um Centro de Saúde ou um hospital encerrado justificaria uma postura mais interventiva da população. Saírem para a rua pelo seu direito a cuidados de saúde, seria um gesto de inteligência cívica. Não é preciso perder-se muito tempo com isto. Para se ser operado, é preciso um hospital; para rezar, pode-se rezar em casa.
A crise afecta a todos, a alguns porque não têm como evitar, a outros porque deixam. Como ateu desempregado, não quero que o Estado use o meu dinheiro para ajudar os representantes da salvação eterna, quero que me ajude aqui e agora. Fazia-me mais jeito.