15/01/12

TERMINUS 285: CHAMEM A POLÍCIA

O que fazer quando somos vítimas de um roubo? Para o cidadão comum, a resposta mais óbvia e legalmente exequível é: chamar a polícia. Esta hipótese só não se coloca quando o roubo tem a designação de taxa ou imposto. Mas, o que fazer quando, em vez de cidadãos comuns, os meliantes atacam a própria polícia? A quem é que a polícia pede auxílio?
Os soldados do posto da GNR de Quarteira estão às voltas com o desaparecimento do cofre onde é guardado o dinheiro recolhido das multas. Perto de 1500€ sumiram sem deixar rasto. O meu conselho seria chamarem a polícia, mas talvez não seja grande ideia.
O tenente-coronel Sequeira, porta-voz do Comando da GNR de Faro anunciou o início da realização de “diligências internas para tentar apurar o que aconteceu.” Aprecio a honestidade do tenente-coronel Sequeira. Não se compromete com um resultado concreto, apenas promete tentar. Se falhar, não o poderemos criticar; quanto muito, podemos dizer “Devias ter tentado um pouco mais.”
As diligências internas são como uma espécie de inquérito, esse jargão mítico das declarações sem conteúdo. Na prática, dizer que se vão realizar “diligências internas para tentar apurar o que aconteceu” é o mesmo que dizer “Vamos perguntar ao pessoal da esquadra se viu alguma coisa. Se alguém disser que sim, óptimo; senão, depois logo se vê.”
Piadas à parte, o tenente-coronel Sequeira possui uma qualidade que eu aprecio bastante num representante da autoridade: a ponderação. Não estou a brincar agora. O tenente-coronel Sequeira é um homem ponderado, um homem que analisa a situação de forma rigorosa antes de proferir a sua opinião. No caso em concreto, um cofre desapareceu do posto da GNR. Para mim, que sou um cidadão comum, parece-me um roubo; para o tenente-coronel Sequeira pode não ter sido, pode ter sido qualquer outra coisa, não necessariamente um crime.
“Estamos a tentar perceber se houve comportamento criminal,” disse o próprio e com razão. O desaparecimento do cofre pode não ter sido roubo, assalto, furto, levamento, gatunagem, pilhagem, saque ou pilharia: pode ter sido um truque de magia. Pode ter sido levado por extraterrestres. Pode ter sido uma brincadeira parva. Pode ter sido muita coisa. Considerando que se trata de um roubo, eu inclino-me a dizer que foi um roubo que aconteceu, mas talvez eu seja uma pessoa de perspectivas limitadas.

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