16/02/12

TERMINUS 291: "SEMPRE EM FRENTE"

Olá. Anda a acontecer tanta coisa no nosso país e no mundo que eu não podia continuar sem manifestar a minha opinião. Houve quem viesse ter comigo e me perguntasse o que é eu achava disto ou daquilo. E eu, muito prontamente, respondi: detesto que me peçam orientações. Ficaram a olhar para mim sem perceber do que é que eu estava a falar. Eu ignorei-os e continuei na minha.
Detesto que me peçam orientações. (Sim, é a mesma frase de há pouco.) Se for em sentido figurado, tipo conselho, não tenho problema nenhum em dar. Desde que saiba, claro. O que me irrita é ter que dar orientações geográficas. Não é por não querer ajudar, é porque as pessoas nunca ficam contentes, genuinamente contentes, a não ser que se termine a explicação duma certa maneira.
A pessoa que estava comigo acabou de sair. Ainda bem.
De certeza que já vos aconteceu irem na rua, descansadinhos da vida, e, de repente, alguém parar o carro ou aproximar-se de vocês e perguntar como é que se vai para determinado sítio. Nunca vos aconteceu? Pois... Se calhar com outro penteado...
Mas imaginem que acontece. Imaginem que alguém se aproxima de vocês e vos pergunta como que se vai para a Rua das Petingas ao Sol e que vocês sabem o caminho do sítio onde estão até à Rua das Petingas ao Sol. Só que vocês não se limitam a saber UM caminho, vocês sabem o melhor caminho de todos, o mais rápido, o mais agradável. E explicam; até usam gestos e slides e tudo o mais.
Quando terminam, reparam que a pessoa que vos pediu orientação está a olhar para vocês com uma expressão de desprezo, como se vocês não a tivessem ajudado em nada. Pelo contrário. É o tipo de expressão que se lança a alguém que nos chacinou a família. Nem vale a pena pensar num "obrigado".
Muita gente não sabe disto, provavelmente porque nunca esteve numa situação destas, mas existe uma maneira muito simples de indicar o caminho a qualquer pessoa sem que essa pessoa fique mal encarada: sempre em frente. Experimentem.
"Vira na primeira à direita, depois na segunda à esquerda, atravessa a estrada e entra numa rua transversal. Corta outra vez à direita e na terceira à esquerda. Anda dois quarteirões até ver um terreno de terra batida. Vira logo na primeira à direita e, depois, é sempre em frente."
Tivesse este exemplo de orientação terminado com "Depois é logo na primeira à direita." e seriam ignorados e repudiados. O "sempre em frente." faz de vocês uns bons cidadãos, amigos de ajudar. O necessitado agradece e vai à sua vida. Não importa o que ele tenha de andar para chegar até onde precisa. As palavras "sempre em frente" dão-lhe alento e convencem-no que é possível.
No fundo, é o que todos nós queremos: que nos indiquem o caminho. Mas, acima de tudo, queremos que não se limitem a dizer o que é preciso para chegar lá. Queremos que o façam de forma a que nos sintamos motivados a trilhá-lo. Terminem com um "sempre em frente". Se não vamos repudiar-vos. Ainda mais.

09/02/12

TERMINUS 290: A MODERNIDADE DOS NOVOS PECADOS


Eu sou alguém que acha que a Igreja Católica é uma instituição parada no tempo. Todavia, sou também alguém capaz de assumir um erro quando tal é necessário. Aqui há tempos li um artigo que dava conta duma tentativa de adaptação da Igreja Católica aos costumes do século XXI. É refrescante ver que, apesar de manter certas tradições, os responsáveis da Igreja Católica não fecham a porta a alguma inovação.
Entre as várias medidas anunciadas está a renovação do catálogo de pecados do Vaticano. E é aqui que as coisas se complicam. Se é verdade que a expressão "catálogo" invoca uma certa imagem comercial  e, como tal, moderna, também é verdade que alguns dos novos pecados são uma contradição em si mesmos. O que, agora que penso nisso, não é isso tão contraditório com muito do que a Igreja Católica tem feito ao longo dos séculos.
Do novo catálogo de pecados fazem parte:
Os atentados contra o ambiente. É de louvar tentarem ajudar o meio ambiente mas, por favor, não acendam velas à Nossa Senhora para reparar a camada de ozono.
O consumo abusivo de drogas. Eu não vejo isto como um não firme ao uso de drogas, vejo mais como um "usem, mas não abusem". Podem pecar, mas só um bocadinho.
As experiências com células estaminais. Retirar uma parte de um outro ser humano para criar outro é errado. Lembrem-se do Adão.
A fecundação medicamente assistida. Esta concordo plenamente. Se estiver a fecundar não quero ter nenhum médico a assistir. Há alturas em que aprecio a assistência dum médico: esta não é uma delas.
Comportamentos que contribuam para aumentar o fosso entre ricos e pobres. Exemplo desse comportamento: ser dono duma cidade, ter um ceptro de ouro cheio de pedras preciosas e roupa de sede debruada a ouro e pedir aos fiéis pobres que não abracem os bens materiais.
Passar demasiado tempo a ler jornais, ver televisão ou a navegar na Internet. Por outras palavras, é pecado estar sem fazer nada quando se pode estar a rezar.
Por tudo isto, penso que é seguro dizer: bem vindos ao século XX!

06/02/12

TERMINUS 289: SÁ CARNEIRO

Parece que é mesmo desta que a investigação ao Caso Camarate vai mesmo até ao fim. Desta vez, não vão haver enrolanços e silêncios mudos. A verdade dos factos vai ser apurada, doa a quem doer. Cabeças vão rolar. O que muitos julgavam esquecido vai ser revelado e a sociedade portuguesa vai saber finalmente o que aconteceu a 4 de Dezembro de 1980.
Entretanto, no país real...
Já me cansa ouvir falar nisto. Será que os nossos políticos não conseguem arranjar outra cortina de fumo mais interessante que esta? Todos nós já percebemos que isto é um cortina de fumo, mas é uma cortina tão ténue que mais valia não lá estar. Fingirem que, passados mais de trinta anos, ainda há algo para apurar é idiota. E mais idiotas são se acreditarem mesmo que vão apurar o que seja.
Não é que não me interesse saber quem matou Sá Carneiro. Claro que gostava de saber. Só que o meu interesse pela verdade do atentado de Camarate não tem nada a ver com simpatias políticas. Gostava de saber quem matou o Sá Carneiro, assim como gostava de saber quem matou o JR no Dallas. O mistério é mais ou menos o mesmo, mas na série eles levaram a coisa mais a sério. Sabiam que o mistério só podia ser mantido durante algum tempo, depois disso perdia o interesse.
Saíndo da ficção para a realidade, podemos comparar, mal comparado, o assassinato de Sá Carneiro com o assassinato de Kennedy. Ainda há quem acredite que não foi Lee Harvey Oswald quem matou Kennedy - e ainda bem para a ficção -, mas para a maioria da população o assunto está arrumado. Oswald matou Kennedy e Jack Ruby matou Oswald. Arrumado o assunto, agora fazem filmes em que abordam outras possibilidades; incluíndo outras mais reais do que aquela oficialmente reconhecida.
Em Portugal, continuamos a tentar vestir uma situação com diferentes possibilidades quando o que deveríamos fazer era arranjar um toinas qualquer e dizer que foi ele. Nem precisa de ser alguém que esteja vivo. Vou fazer aqui uma sugestão para os actuais responsáveis da investigação sobre o Caso Camarate.
Um dos investigadores vai à terra natal de Sá Carneiro e resolve visitar a escola secundária frequentada por Sá Carneiro. Durante uma visita à secretária, aproveita quando a única funcionária que ainda lá está tem de ir fazer serviço de limpeza para dar uma espreitadela aos arquivos. Ao verificar os arquivos do ano em que Sá Carneiro concluiu o ensino secundário, descobre que este teve uma quezília com um colega de turma sobre quem jogava melhor à bola.
O investigador toma nota do nome desse colega e segue essa pista. Descobre que o colega também queria ter entrado para o mesmo curso de Direito que Sá Carneiro, mas não conseguiu porque Sá Carneiro ocupou a última vaga que havia. Esta rivalidade continuou por muitos anos, tendo tido apenas um intervalo quando o tal colega foi chamado para a guerra.
Regressado da Guiné, tudo o que colega queria era esquecer o passado. Nisto dá-se o 25 de Abril e o colega fica contente. Anos depois, Sá Carneiro torna-se Primeiro-Ministro de Portugal e o colega passa-se dos carretos. Constrói uma bomba e consegue colocá-la no Cessna que Sá Carneiro vai utilizar.
Meses depois da explosão, decide fazer uma visita à sua terra natal e descobre que o Sá Carneiro que matou não era o seu colega de escola, mas um outro Sá Carneiro que ele não conhecia de lado nenhum. Furioso por este Sá Carneiro tê-lo feito matar o Primeiro-Ministro puxa duma pistola e dispara. Sá Carneiro (o rival, não o político) cai da ravina abaixo, mas não sem antes agarrar o seu assassino pelo casaco e levá-lo consigo para o fundo da Boca do Inferno.
E assim é encontrado o assassino de Sá Carneiro. Agora pode-se encerrar o caso e começar-se a fazer filmes sobre isso. Entretanto, se precisarem de ideias para novas vítimas de atentado, podem contactar-me que eu tenho uma listinha.

03/02/12

TERMINUS 288: SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS

Demorei, mas consegui finalmente perceber o que une e diferencia Pedro Passos Coelho de António José Seguro. O primeiro é Secretário-Geral do Governo Alemão, o segundo é o senhor que não diz nem não nem sim com uma violência que assusta. Mas isto já eu sabia. A minha descoberta, se assim se pode dizer, vai um pouco mais longe e tem que ver com o local onde o líder da oposição, o senhor Seguro, lança as suas farpas ao líder do Governo, o senhor Merkel, perdão, Coelho.
Tal como Passos Coelho, António José Seguro escolhe fazer muitas das suas declarações durante almoços de convívio. As semelhanças acabam aqui. Na verdade, muitos políticos (e não só) escolhem fazer declarações durante almoços de convívio. Almoços ou jantares. Entenda-se aqui qualquer encontro que envolva vinho. Eu não faço ideia se Seguro bebe vinho ou qualquer outro bebida alcoólica, mas eu já estive em muito almoço e muito jantar de convívio e sei como é que as coisas se proporcionam.
Recordo que, no tempo em que era um simples aspirante a líder da oposição, Passos Coelho aconselhou o regresso ao nuclear. Achar que em Portugal, cuja justiça atribuiu a queda da Ponte Hintze Ribeiro a causas naturais e não a má manutenção, há condições de ter uma central nuclear foi uma ideia idiota. A diferença é que Passos disse isto num almoço e no almoço seguinte, mesmo que não tenha repetido a ideia, pelo menos não a contradisse. Seguro, ao contrário do que o nome indica, não demonstra essa segurança. Ou melhor, tenta demonstrar diferentes tipos de segurança conforme a zona onde está. Se está num almoço em Baião, a sua posição é sim; se está num jantar na Lousada, a sua posição é não.
Estas mudanças de posição consoante o eleitorado com que se está não são nada de novo. Faz parte de ser político dizer e ser aquilo que o eleitorado quer. O problema é quando se tenta iludir as pessoas com isso. Eu acredito na liberdade de escolha, mas também acredito que há matérias cuja decisão não pode ser submetida a vontade popular. O caso da redução do número de freguesias é o grande exemplo disso. Todos concordam que tem de ser feito. Desde que não seja no seu concelho.
Como líder (vá lá) da oposição, Seguro cumpre bem o seu papel de instigar a insurreição dos principais interessados em que as coisas fiquem exactamente como estão: os autarcas e os bairristas. Se perguntarmos a um presidente se está disposto a abandonar o cargo e a perder todas as regalias que tem, a resposta óbvia é "Não, porque isso coloca em causa a representatividade democrática."
O argumento da representatividade democrática é recorrente e foi utilizado, recordo, por todos os partidos com assento parlamentar da última vez que se discutiu a redução do número de deputados. Todos concordavam que era necessário reduzir e/ou cortar com gastos supérfluos... nos outros partidos; fazer isso no seu partido poderia pôr em causa a representatividade democrática.
Já disse e afirmo que, apesar de gostar muito da minha terra, entendo que certos tempos obrigam a certas medidas. Posso discordar, mas percebo que seja um mal necessário por decisões mal tomadas anteriormente. Lamento as circunstâncias que forçam certas posições, mas lamento mais ainda que essas posições sejam manipuladas para fins políticos.
Eu acho que o que importa mais às pessoas é o nome da sua freguesia. Na prática, a junção de duas ou mais freguesias não acaba com o nome de nenhuma delas. Deixam de ser freguesias, passam a ser bairros. Quem vive lá sabe onde começa o seu bairro, a sua freguesia, e onde acaba.
Voltando ao Lord Abstenção Violentíssima e ao Marquês do Funaná, estes dois homens estão apenas separados pela posição que ocupam. O que Seguro é na oposição, a dizer uma coisa e o seu contrário, não é muito diferente daquilo que Passos era. A diferença, como já disse, era que Passos conseguia ser mais discreto e não se contradizer no próprio dia.
Um político não diz aquilo que as pessoas precisam de ouvir, diz aquilo que as pessoas querem ouvir e isso obriga-os, por vezes, a darem ouvidos ao que elas dizem. Passos Coelho pode ter errado ao confiar na capacidade dos portugueses em gerir energia nuclear, mas Seguro também não está muito bem ao deixar que a decisão de "sim" ou "não" seja tomada por aqueles para quem o "sim" é a única resposta possível.
Termino com uma ressalva. Considerando todos os aspectos bons e maus da junção de freguesias, há um bom que me salta à vista e que é a oportunidade que algumas pessoas têm de dar um nome diferente ao sítio onde vivem. Pensem nisso, habitantes de Angeja, Eucísia, Gebelim, Soeima, Anelhe, Palaçoulo, Duas Igrejas, Genísio, Guisande, Sanjurge, Gançaria, Tó, Trouxemil, Caveira, Carapelhos, Cuide de Vila Verde, Porto da Carne, Ramela, Irivo, Fojo Lobal e Urra, entre muitos outros. E quem achar que eu estou a troçar destas freguesias e dos seus habitantes, informo que sou residente na freguesia da Baixa da Banheira, concelho da Moita. Estou pronto para as vossas piadas.