03/02/12

TERMINUS 288: SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS

Demorei, mas consegui finalmente perceber o que une e diferencia Pedro Passos Coelho de António José Seguro. O primeiro é Secretário-Geral do Governo Alemão, o segundo é o senhor que não diz nem não nem sim com uma violência que assusta. Mas isto já eu sabia. A minha descoberta, se assim se pode dizer, vai um pouco mais longe e tem que ver com o local onde o líder da oposição, o senhor Seguro, lança as suas farpas ao líder do Governo, o senhor Merkel, perdão, Coelho.
Tal como Passos Coelho, António José Seguro escolhe fazer muitas das suas declarações durante almoços de convívio. As semelhanças acabam aqui. Na verdade, muitos políticos (e não só) escolhem fazer declarações durante almoços de convívio. Almoços ou jantares. Entenda-se aqui qualquer encontro que envolva vinho. Eu não faço ideia se Seguro bebe vinho ou qualquer outro bebida alcoólica, mas eu já estive em muito almoço e muito jantar de convívio e sei como é que as coisas se proporcionam.
Recordo que, no tempo em que era um simples aspirante a líder da oposição, Passos Coelho aconselhou o regresso ao nuclear. Achar que em Portugal, cuja justiça atribuiu a queda da Ponte Hintze Ribeiro a causas naturais e não a má manutenção, há condições de ter uma central nuclear foi uma ideia idiota. A diferença é que Passos disse isto num almoço e no almoço seguinte, mesmo que não tenha repetido a ideia, pelo menos não a contradisse. Seguro, ao contrário do que o nome indica, não demonstra essa segurança. Ou melhor, tenta demonstrar diferentes tipos de segurança conforme a zona onde está. Se está num almoço em Baião, a sua posição é sim; se está num jantar na Lousada, a sua posição é não.
Estas mudanças de posição consoante o eleitorado com que se está não são nada de novo. Faz parte de ser político dizer e ser aquilo que o eleitorado quer. O problema é quando se tenta iludir as pessoas com isso. Eu acredito na liberdade de escolha, mas também acredito que há matérias cuja decisão não pode ser submetida a vontade popular. O caso da redução do número de freguesias é o grande exemplo disso. Todos concordam que tem de ser feito. Desde que não seja no seu concelho.
Como líder (vá lá) da oposição, Seguro cumpre bem o seu papel de instigar a insurreição dos principais interessados em que as coisas fiquem exactamente como estão: os autarcas e os bairristas. Se perguntarmos a um presidente se está disposto a abandonar o cargo e a perder todas as regalias que tem, a resposta óbvia é "Não, porque isso coloca em causa a representatividade democrática."
O argumento da representatividade democrática é recorrente e foi utilizado, recordo, por todos os partidos com assento parlamentar da última vez que se discutiu a redução do número de deputados. Todos concordavam que era necessário reduzir e/ou cortar com gastos supérfluos... nos outros partidos; fazer isso no seu partido poderia pôr em causa a representatividade democrática.
Já disse e afirmo que, apesar de gostar muito da minha terra, entendo que certos tempos obrigam a certas medidas. Posso discordar, mas percebo que seja um mal necessário por decisões mal tomadas anteriormente. Lamento as circunstâncias que forçam certas posições, mas lamento mais ainda que essas posições sejam manipuladas para fins políticos.
Eu acho que o que importa mais às pessoas é o nome da sua freguesia. Na prática, a junção de duas ou mais freguesias não acaba com o nome de nenhuma delas. Deixam de ser freguesias, passam a ser bairros. Quem vive lá sabe onde começa o seu bairro, a sua freguesia, e onde acaba.
Voltando ao Lord Abstenção Violentíssima e ao Marquês do Funaná, estes dois homens estão apenas separados pela posição que ocupam. O que Seguro é na oposição, a dizer uma coisa e o seu contrário, não é muito diferente daquilo que Passos era. A diferença, como já disse, era que Passos conseguia ser mais discreto e não se contradizer no próprio dia.
Um político não diz aquilo que as pessoas precisam de ouvir, diz aquilo que as pessoas querem ouvir e isso obriga-os, por vezes, a darem ouvidos ao que elas dizem. Passos Coelho pode ter errado ao confiar na capacidade dos portugueses em gerir energia nuclear, mas Seguro também não está muito bem ao deixar que a decisão de "sim" ou "não" seja tomada por aqueles para quem o "sim" é a única resposta possível.
Termino com uma ressalva. Considerando todos os aspectos bons e maus da junção de freguesias, há um bom que me salta à vista e que é a oportunidade que algumas pessoas têm de dar um nome diferente ao sítio onde vivem. Pensem nisso, habitantes de Angeja, Eucísia, Gebelim, Soeima, Anelhe, Palaçoulo, Duas Igrejas, Genísio, Guisande, Sanjurge, Gançaria, Tó, Trouxemil, Caveira, Carapelhos, Cuide de Vila Verde, Porto da Carne, Ramela, Irivo, Fojo Lobal e Urra, entre muitos outros. E quem achar que eu estou a troçar destas freguesias e dos seus habitantes, informo que sou residente na freguesia da Baixa da Banheira, concelho da Moita. Estou pronto para as vossas piadas.

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