22/03/12

TERMINUS 293: MEMÓRIAS DE ANDAR DE COMBOIO

Eu nunca disse isto a ninguém, mas eu gosto de andar de comboio. Antigamente gostava mais. Era mais barato. E costumava andar com mais frequência. Não só porque era mais barato, mas também porque precisava.
Estive a estudar durante um ano em Tomar e todas as segundas-feiras tinha de apanhar o Regional em Santa Apolónia. Vinha a casa passar o fim-de-semana e, todas as segundas, às nove e picos, lá estava eu à espera na estação. Era um ritual que se repetia todas as semanas e mesmo assim continuava a não fazer sentido a lenga-lenga que entoavam a cada partida. Eu prestava especial atenção àquela que dizia respeito ao comboio que pretendia apanhar, mas acontecia com os outros também.
Começava assim: "Dentro de minutos irá sair da linha número seis o comboio regional com destino a Tomar. Efectua paragens em todas as estações e apeadeiros do seu percurso." Até aqui nada de anormal. Depois vinha a parte estranha: "Informamos que não é permitida a entrada e saída de passageiros entre as estações Lisboa Santa Apolónia e Lisboa Oriente".
Ora bem... Para quem nunca andou de comboio entre estas duas estações, aqui vai um pequeno esclarecimento: à excepção dos suburbanos, nenhum outro comboio pára entre Lisboa Santa Apolónia e Lisboa Oriente. Os regionais não param de certeza. E o aviso é dado para todos os comboios, menos para o suburbano. Não faz muito sentido. O comboio não pára. Ou melhor, pára. Só que as portas são automáticas e não abrem.
E, mesmo que abrissem, o aviso continuaria sem fazer sentido. Aliás, ainda faria menos. Em primeirto lugar, como é que se proíbe um passageiro de entrar? Não é ser picuínhas, mas alguém só se torna passageiro depois de entrar! Quanto muito admito que quem está na estação possa ser considerado um "possível passageiro".
O aviso terminava com um inequívoco "É proibido saltar do comboio em movimento." Era este o aviso, a proibição. E às proibições, normalmente, estava associada uma multa. A pessoa saltava do comboio, morria e quem é que pagava? Nunca cheguei a saber porque nunca ninguém saltou.
Eu compreendia, apesar de algumas partes fazerem pouco sentido, a necessidade de avisar os passageiros. Mas porquê fazer este aviso apenas entre estas duas estações? Eu não sabia se isto acontecia nos restantes percursos por este Portugal fora - hoje em dia, com tanta linha a encerrar, de certeza que acontece menos -, mas fazia-me confusão não deixarem saltar passageiros apenas nestas duas estações. Será que nas restantes estações do percurso já era permitido saltar do comboio em movimento? Será que o número de saltos que se podiam fazer estava ligado ao tipo de comboio e à classe na qual viajávamos? Como seria ao fim-de-semana e feriados? As crianças, idosos, mulheres grávidas e pessoas com deficiência teriam regalias?
Tudo perguntas para as quais nunca consegui resposta.
Quando era pequeno, os meus pais costumavam-me dizer sempre: "Tem cuidado. Anda sempre na linha, senão a gente chateia-se." E eu tentei sempre cumprir essa regra. Até que, ao fim de várias vezes de ser quase atropelado por um comboio, percebi que às vezes é melhor andar fora da linha.
Felizmente para a minha integridade física, eu tive este raciocínio, mas muitos não conseguiram fazer o mesmo. A quantidade de pessoas que morrem atropeladas nas linhas-férreas não é por acidente, suicídio ou seja lá o que for. Eles são atropelados porque levam tudo à letra e porque têm pais autoritários e temem mais ficar de castigo do que serem atropelados por um Intercidades a caminho da Guarda.

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