29/03/12

TERMINUS 295: O QUE DIZER?

É um dia normal. Tal como em dias anteriores, o homem sai de casa de manhã cedinho para ir para o trabalho. Logo para começar bem o dia, o carro não pega. Verifica o combustível, o motor, o óleo; passados cinco minutos lá descobre o que se passa e consegue pôr o carro a trabalhar.
Como está muito em cima da hora, resolve seguir por outro trajecto para poupar caminho. Armado em bom porque tem um GPS comprado na feira, entra numa rua sem saída e fica lá bloqueado porque outros três otários, provavelmente com um GPS igual ao seu, entraram atrás dele e bloquearam-lhe a passagem.
Assim que sai dali, decide retomar o percurso e seguir o trajecto que fazia todos os dias. O grande problema é que ele costuma passar por ali bem mais cedo. À sua hora a estrada é dele, hoje fica meia hora no trânsito para aprender a não se armar em esperto. Por esta altura, é mais que certo que ele já não vai chegar a horas. Decide então, apesar do que aconteceu da última vez, meter-se por um atalho. E desta vez, felizmente, tem sorte: a rua tem saída. Infelizmente, um dos pneus arrebenta.
O homem sai do carro para mudar o pneu e nisto, já depois de terminado o serviço, aparecem três bacanos. Ora, três bacanos, em pleno Inverno, às 7:20 da manhã, numa rua deserta, só podem querer dizer duas coisas: ou vêm da discoteca ou vêm para gamar. Como não há discotecas ali na zona, o homem palpita que a segunda hipótese deve ser a mais viável.
Confirmando-lhe o palpite, os três fazem-lhe uma rodinha, limpam-lhe a carteira, dão-lhe uma bela carga de porrada e, quando o suplício parecia já ter chegado ao fim, há um deles que o manda despir-se. Naquele instante o homem fica dividido por sentimentos ambíguos. Por um lado fica triste por lhe estarem a roubar a roupa, por outro fica orgulhoso de haver quem aprecie o seu vestuário ao ponto de achar que é capaz de vender aquilo. Seja como for, o homem não tem outro remédio senão despir-se.
Um deles, simpático, deixa que ele fique com as meias calçadas. O homem agradece e logo de seguida atiram-no ao chão. Ainda lhe dói o corpinho do espancamento que levara há minutos. Contudo, assim que o primeiro rufia lhe salta para cima, não consegue deixar de sentir saudades por aqueles agradaveis momentos em que eram punhos e pés a atingi-lo e não outros membros. Depois de cada ter a sua vez, o homem é espancado novamente. É tipo o cigarrinho depois do acto. No fim, os três bacanos pegam na roupa e no dinheiro, acabam de trocar o pneu e vão-se embora com o carro.
O homem, cheio de dores, caído no meio da estrada, sem roupa, um autêntico farrapo humano, olha para o relógio comprado na feira. Além das meias, foi a única coisa que os meliantes lhe deixaram ficar. Chegar a horas, é para esquecer.
Este é um homem bem-educado, um homem que raramente diz asneiras. Mas se há momentos em que, mais do que saber bem, é necessário dizer um palavrão, este é um desses momentos. O homem levanta-se, olha para o céu ainda meio escuro, toma fôlego e está prestes a dizer a maior asneira que jamais proferiu quando repara que está uma criança de seis anos a olhar para ele. Depois de tudo o que lhe acontecera naquela manhã, não seria isso que o iria incomodar, e sim o facto da criança estar acompanhada dos pais. E também o facto do pai parecer mais um armário do que uma pessoa.
Naquela situação, com toda aquela raiva contida, o homem quer extravasar, quer gritar, só que, ao mesmo tempo, tem de se conter senão leva um enxerto ainda pior. E então, tudo o que ele consegue, tudo o que ele pode dizer é um inofensivo: “Eh pá... chiça!”


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