29/04/12

TERMINUS 300: O FIM


O primeiro artigo do blogue Protuberância foi publicado a 29 de Abril de 2006. Seis anos depois é tempo de fazer um balanço, fechar a porta e seguir para novas paragens.

Este não foi o primeiro blogue que criei, nem foi aquele a que mais tempo e atenção dediquei. Foi, aliás, bastante ignorado e mal-tratado nos seus primeiros meses, diria mesmo anos, de vida. Às vezes, por falta de tempo, outras, por pura preguiça, negligenciava a escrita e publicação de artigos com outras afazeres, uns mais prioritários, outros nem tanto.

O blogue Protuberância começou por ser um texto de despedida afixado numa porta. Corria o ano de 2005, trabalhava eu no Centro de Cópias da Universidade Autónoma de Lisboa, no Pólo da Boavista, e nos seis meses que lá estivera criara uma relação de amizade com muitos alunos e professores. Os alunos de hoje ignoram isto, mas havia nesse tempo uma batalha de egos entre os cursos de Arquitectura e de Ciências da Comunicação, batalha essa capaz de fazer parecer a Guerra Civil Americana uma amena discussão no trânsito.

Quando soube que iria sair dali para iniciar um estágio na Biblioteca Municipal da Moita, resolvi expressar a minha opinião sobre esse conflito sem sentido e afixá-lo na porta do estabelecimento. Não tardou muito até eu decidir ir um pouco mais além, criando aquele que seria o meu terceiro blogue.

Durante os primeiros da sua existência, os artigos eram publicados quando havia tempo e vontade. Tanto podia estar semanas, meses, sem escrever nada, como podia escrever vários artigos no mesmo dia. (Na prática isso não mudou muito. Só que hoje em dia já sei programar os dias de publicação, coisa que antes não fazia.)

Em 2010 houve alguém que me disse que eu devia apostar a sério nas minhas crónicas. Motivado por esse desafio, contactei diversos jornais e disponibilizei-me a escrever para eles artigos de humor. Dos vários que aceitaram a minha proposta, há três (Jornal do Barreiro, O Rio e O Primeiro de Janeiro) que publicam com maior frequência textos de minha autoria. Não recebo qualquer remuneração por isso, mas é uma forma de chegar a outros públicos.

Em simultâneo com a existência deste blogue desenvolvi e concluí vários projectos. Dessa lista, constam os seguintes trabalhos:

O CAMINHO DE VOLTA - Guião para longa-metragem. Em revisão.
REDENÇÃO & DEVER - Guião para longa-metragem. Em desenvolvimento.
O CONVITE - Guião para longa-metragem. Em desenvolvimento.
R.P.G. - REAL PLAYING GAME - Guião para longa-metragem, escrito em parceria com David Rebordão. Produzido pela MGN Filmes. Em breve nos cinemas.

A CHAMADA - Guião para curta-metragem, realizada por Vasco Rosa. Disponível no MEO Videoclube
SINAPSE (aka SYNAPSIS) - Guião para curta-metragem, escrita com a colaboração de Vasco Rosa e José Inácio. Em stand-by.
SONHOS DENTRO DE SONHOS - Guião para curta-metragem. À espera de realizador.
A ARCA - Guião para curta-metragem. À espera de realizador.
A FÓRMULA DA FELICIDADE - Guião para curta-metragem. À espera de realizador.
DO OUTRO LADO (aka A PORTA) - Guião para curta-metragem. À espera de realizador.
CATIVA - Guião para curta-metragem. À espera de realizador.
DA LUCIDEZ À LOUCURA - Guião para curta-metragem. A ser reformulado para longa-metragem.
ESPELHO FALSO - Guião para curta-metragem. À espera de realizador.
O EXCLUSIVO - Guião para curta-metragem. À espera de realizador.
O LIVRO - Guião para curta-metragem. À espera de realizador.
P(L)ANO DE FUNDO - Guião para curta-metragem. À espera de realizador.
A PRIMEIRA VEZ - Guião para curta-metragem. À espera de realizador.
PSICOAPATIA - Guião para curta-metragem.A ser reformulado para longa-metragem.
SOB VIGIA - Guião para curta-metragem. À espera de realizador.
OS ÚLTIMOS QUARENTA MINUTOS DA MINHA VIDA - Guião para curta-metragem. À espera de realizador.

A INTERSECÇÃO - Guião para episódio piloto, mais dois episódios seguintes.
O ÚLTIMO - Guião para episódio piloto, mais quatro episódios seguintes.

UM CAPPUCCINO VERMELHO - Romance de ficção. Nova versão.
PÁTRIA ATRAVESSADA - Livro de viagem. A estudar hipóteses de publicação.
HISTÓRIAS EM AVULSO Contos de diversos géneros. Em revisão.
A IMAGEM - Romance de ficção. Em revisão.

É claro que esta lista, por mais extensa que pudesse ser, não desculpa o desleixo que, por vezes, demonstrei para com este blogue, embora, de certa forma, ajude a explicar o porquê desse comportamento. Portanto, contas feitas, foram seis anos produtivos q.b. e fecho esta porta consciente e satisfeito pelo trabalho que fiz.

O blogue Protuberância continuará disponível para quem o quiser visitar, mas os seus artigos terminam aqui. A partir de agora estarei no meu novo blogue: ângulo obtuso.

Visite-o já pois tem um passatempo à espera.

26/04/12

TERMINUS 299: ARTIGO (NOSTÁLGICO) SOBRE A SOFLUSA

Embora sempre tenha morado na Margem Sul, desde tenra idade que vou para Lisboa. Inicialmente acompanhado, hoje em dia por conta própria. E sempre apreciei a travessia do Tejo, tanto nos barcos antigos como nos actuais catamans. Eu tenho mais por hábito gozar com as coisas do que contemplá-las com a nostalgia que ela merecem, mas ao preparar este artigo dei por mim a fazer justamente isso. É verdade que os preços estão mais caros, há menos carreiras, despediu-se mais pessoal, mas também é verdade que antigamente demorava quase duas horas em transportes de casa para o trabalho e hoje em dia demoro metade do tempo. Não digo que concordo com o aumento do preço dos títulos de transporte – principalmente quando estes antecedem uma renovação de frota da administração – mas reconheço o avanço que se fez nos últimos anos.
A travessia tornou-se mais rápida com a chegada dos catamarans, todavia persiste um problema que já acontecia com os barcos antigos e que tem que ver com os nomes. Os nomes dos catamarans, embora prestem homenagem a pessoas ilustres da Cultura e da História Portuguesa, geram mais equívocos e embaraços do que louvores. Comentários como “Eu no Torga gosto é de ir atrás.”, e piores, não dignificam em nada o autor de Contos da Montanha.
Este problema com os nomes acontecia também, como já disse, nos barcos antigos, embora fosse num nível completamente diferente. Os barcos que partiam do Barreiro iam todos para Lisboa. No entanto, não era isso que as placas indicavam. Um barco indicava como destino “São Jorge” nos Açores, outro, mais vago, “Trás-os-Montes”, mas havia mais. E isto iludia as pessoas. Pelo menos a mim iludia. Quando eu quando apanhava um barco que tinha como destino o “Algarve” era porque eu queria ir para o Algarve e não para Lisboa! Trezentos paus para ir do Barreiro para o Algarve? Era logo!
O único que ainda escapava era o “Martim Moniz”. Não parava mesmo lá, mas era o que ficava mais perto. Fazia-me confusão eu ser o único a queixar-me disto. Entretanto, fiz a operação e tudo passou a fazer sentido. 
Voltando aos catamarans, para mim são como uma casa de banho gigante; no sentido em que, cada vez que lá vou, venho sempre com uma ideia ou uma observação. A mais recente foi um aviso que li há tempos sobre manter as crianças sob vigilância. O aviso já era antigo, já o havia lido antes, mas só nesta última leitura é que eu percebi o real significado contido naquelas palavras.
O aviso pede para manter as crianças sob vigilância. Eis o que eu não percebo em relação aos raptos nos barcos. Caso alguém tenha uma falha mental elevada ao ponto de querer levar uma dessas avante, onde é que guarda os putos? A não ser que seja alguém da tripulação, o único sítio que eu vejo para alguém guardar um puto é debaixo do banco. Onde guardam os coletes de salvação. Só que não cabem lá dentro as duas coisas. Eu sei porque já experimentei com um amigo meu que é anão – eu não gosto de falar sem saber – e aquilo é apertado. Ou seja, para enfiar o puto lá dentro, o raptor é obrigado a vestir o colete de salvação. E aquilo chama a atenção.
Manter as crianças sob vigilância. Para quê? Já viram os putos que andam nos barcos? Quem é que vai querer um puto daqueles a moer o juízo? Só dá vontade de os atirar pela janela.
Eh pá! Não sejas assim. São só crianças!”
E a culpa é de quem? Minha? Já com os bebés é a mesma coisa. Até quando é que temos de aguentar? Quando estamos num sítio público, tipo consultório, e está um bebé a chorar, ninguém é capaz de dizer nada! Ninguém! Quanto muito é para atirar palpites.
Se calhar 'tá sujo.”
Isso é mas é fome.”
Ou então sono.”
E eu pergunto: e vontade de chatear, não?
Ninguém acredita que um bebé possa fazer birra só para moer o juízo aos pais e a toda a gente à sua volta. É preciso ser-se mesmo estúpido. O Pavlov ensinou-nos isso. Estímulo-reflexo. E o bebé não é parvo. O bebé sabe que basta fazer um minuto de choradeira para lhe darem de comer, mudarem a roupa, embalarem-no e etc. É o sonho de qualquer homem. Fazer um choradinho e espetarem-lhe uma mama na boca. Alguns bem tentam, mas tudo o que conseguem é ficarem com ar deprimente.
Alguém tem de ensinar uma lição a esses bebés que choram sem razão. Mas calma! Também não sou adepto da violência excessiva. Acho que esfregar-lhe a cabeça em carne crua e pô-lo a brincar com um rotweiller dos pequeninos chega. Aí, ele pode chorar, mas já se sabe porquê e não é preciso dar palpites.

19/04/12

TERMINUS 298: ANDAR DE AUTOCARRO 3 – ANDAR SEM BILHETE & PASSE UNIVERSAL

Sempre que ando de transportes públicos costumo utilizar passe, mas houve uma altura na minha vida em que, por ser utilizador esporádico, bastavam-me os bilhetes. Hoje em dia já quase que não há bilhetes, é tudo cartão, mas eu lembro-me do medo que sentia caso o pica aparecesse quando viajava sem bilhete e da frustração quando gastava dinheiro no bilhete e não aparecia ninguém para o picar.
Isto irritava-me profundamente porque eu comprava o bilhete por uma única razão: o pica. Se o pica não aparecia, era um bilhete que ia para o lixo sem cumprir o seu real propósito. Eu não precisava de bilhete para andar autocarro: bastava-me o autocarro. Sem bilhete, podia de autocarro à mesma; sem autocarro, não podia andar de bilhete. Era tão básico como parece.
A certa altura eu desisti de comprar bilhete, o que levou a alguns confrontos bem intensos. Ao fim de três meses de utilização de transportes públicos sem adquirir um único bilhete, apareceu-me, finalmente, um pica. E o bandalho queria multar-me. Dizia ele que eu não possuía um título de transporte válido e, como tal, teria de me passar uma multa.
Irritado, confrontei-o com as vezes que tinha adquirido bilhete e ele não tinha aparecido. Não resultou. E aqui fica uma pequena grande lição: leiam os meus artigos, riam-se com as minhas parvoíces, mas não sigam os meus conselhos. Podem-se dar mal.
Esta história nunca aconteceu, foi apenas uma criação fictícia da minha parte, assim como esta ideia com a qual terminarei este artigo: tive um sonho, no qual eu era a pessoa mais espectacularmete humilde do mundo. Isto não tem nada a ver com a ideia que eu vos quero contar, foi apenas um desabafo. Vamos à ideia.
Como seria se todas as companhias de transporte públicos adoptassem um sistema de passe social universal? Já temos passes combinados com Soflusa, Transtejo, STCP, TCB, Metropolitano de Lisboa, Metropolitano do Porto, TST, Barraqueiro, CP, etc. etc. Essencialmente, transportes terrestres, fluviais e ferroviários.
E os aéreos? Há todo um mercado por explorar. O combinado TAP+Carris+CP seria óptimo para aqueles turistas que vêm da América Central com embrulhos no estômago. Com a quantidade de voos que fazem todos os meses, de certeza que lhes daria jeito. Para aquelas pessoas que viajam muito teriam de fazer vários modelos. Teríamos, por exemplo, o N (nacional), o E (europeu), o IC (inter-continental) e o PTL (pra todo o lado). Isto seriam os gerais.
Depois, tal como já acontece com os combinados já existentes, haveriam também as subdivisões. A pessoa vai à companhia, preenche os impressos, escolhe o modelo e depois a zona abrangente; o simples, o 1, o 12 e o 123, que é o maior.
Claro que haviam de aparecer problemas. É normal.
Então o senhor quer ir para as Caraíbas, não é assim?”
É sim.”
Pois, mas o seu passe é o N. Só dá até ao Cacém.”

12/04/12

TERMINUS 297: ANDAR DE AUTOCARRO 2 – HORA DE PONTA & VELHAS

A pior altura para andar nos autocarros, e transportes públicos em geral, é na hora de ponta. Eu não tenho muito que me queixar porque normalmente ando sempre fora de horas, mas às vezes, tem de ser. E o pior para mim nessas alturas, além das velhas carregadas de sacos a quererem entrar num espaço onde até os micróbios se sentem apertados, são os empurrões e os encontrões que as pessoas dão umas nas outras. Isto, já de si é chato, mas torna-se mais chato ainda quando temos aquelas pessoas que, quando nós as pisamos e não pedimos desculpa, ficam fulas. Pode acontecer nós pisarmos sem querer e não repararmos. A mim acontece-me isso às vezes. É por isso que às vezes, volta não volta, há alguém que se vira pra mim e grita, “Vê lá onde é que pões os pés, ó palhaço!”
No entanto, quando reparamos e pedimos desculpa, a resposta mais comum é, “Não foi nada. Deixe estar.” Ou então não dizem nada e ficam o resto da viagem a resmungar.
Nos autocarros há também aqueles lugares reservados a pessoas idosas, inválidas, mulheres grávidas, etc. Deixem-me só fazer um pequeno aparte para explicar uma coisa: estes lugares não são exclusivos dessas pessoas. São reservados. O que quer dizer que as outras pessoas que não se insiram em nenhuma destas categorias também se podem sentar lá. Só no caso dos restantes lugares estarem ocupados é que os destinatários têm direito, ou prioridade, melhor dizendo, a eles.
Isto vem a propósito duma cena que assisti ontem quando ia pra casa no autocarro.
O autocarro vinha quase vazio. Os lugares reservados vinham todos ocupados por várias pessoas, de todo o género, de todas as idades, incluindo um casal de jovens aí nos seus 20 anos.
Então, a meio da viagem, entra uma velha que de imediato começa a ordenar à moça que lhe desse o lugar. A moça recusa-se por estarem vários lugares vagos e a velha insiste. Esta troca de argumentos ainda dura alguns minutos, até que o namorado decide intervir e diz à velha que se vá sentar num dos outros lugares que estavam livres.
Mas a velha continuava a teimar que queria sentar-se ali. O rapaz começa a perder a paciência e é então que ela diz, “Você tem que me dar esse lugar porque eu já sou muito velha.”
Ao que o rapaz responde, “Eu não tenho culpa que você ainda esteja viva.”
O autocarro em peso esperava que aquilo descambasse à séria e até já se faziam apostas, quando subitamente a velha diz, “Eu saio já na próxima. Escusa de se incomodar.”
É má vontade, ou não é?

05/04/12

TERMINUS 296: ANDAR DE AUTOCARRO 1 – RAZÕES PARA & PASSAGEIROS

Detesto o trânsito. A sério que detesto. Para mim não há nada pior do que levar três horas de carro a fazer um trajecto que se pode fazer perfeitamente numa hora a pé. O problema, no meu ver, está nos carros. Não tenho nada contra os carros, atenção, mas, sinceramente, acho que dois carros por pessoa é um bocadinho demais. Para que é que alguém quer mais do que um carro se só pode andar com um de cada vez? É dia sim, dia não?
Há quem tente combater esse problema, usando os transportes públicos. Só que já se sabe que nestas coisas ou é 8 ou é 80. Ou vai tudo de carro, ou vai tudo de transportes. Não há meio-termo. Eu antes queixava-me porque havia muita gente a andar de carro e a entupir o trânsito. Hoje é o contrário. Anda tudo de transportes públicos. Até mesmo as pessoas que têm carro. Passámos de alguns milhares para alguns milhões. É exactamente a mesma coisa que viajar numa lata de sardinha: às tantas vale mais um gajo ir a pé.
E depois vem a qualidade dos passageiros. Oh sim! São do melhor que há! O meu preferido é aquele que fala. Não faz nada – só fala. E o pior é que fala, fala mas não diz nada de jeito.
Também gosto muito daquelas mulheres que vêm com dois riscos a fazer de sobrancelhas. Acho que elas só falam porque acreditam que é a única relação que ainda podem estabelecer com o mundo da maneira que andam na rua. Fazem-me lembrar aquele filme dos palhaços assassinos, o ‘Clown House’.
Eu não percebo porque é que as mulheres rapam as sobrancelhas. Eu acho que, na opinião das mulheres, não existe nada na face humana que pareça bem da maneira como vem ao mundo.
Maquilhagem, eh pá, tolera-se. Operações ao nariz, enfim. Somos nós que as pagamos a maior parte das vezes, ou então os pais, mas pronto. Agora, rapar as sobrancelhas? Quem é que olha para as sobrancelhas? (Abra-se aqui um parentesis para dizer que não arranjar as sobrancelhas não significa andar com dois esquilos por cima dos olhos.) O mais estranho nisto tudo, é que elas rapam as sobrancelhas para ficarem mais atraentes, mas depois têm a bela ideia de pintarem umas sobrancelhas falsas por cima.
Não sei o que é que vocês acham, mas a imagem duma mulher com sobrancelhas falsas e lábios pintados com aquele vermelho berrante, o cabelo armado com quilos de laca em cima e os óculos versão Amália assusta-me um bocado. Parecem um bando de clones. A mim assusta-me. Quando não parecem palhaços parecem travestis. É esta a ideia de sedução que querem transmitir?