26/04/12

TERMINUS 299: ARTIGO (NOSTÁLGICO) SOBRE A SOFLUSA

Embora sempre tenha morado na Margem Sul, desde tenra idade que vou para Lisboa. Inicialmente acompanhado, hoje em dia por conta própria. E sempre apreciei a travessia do Tejo, tanto nos barcos antigos como nos actuais catamans. Eu tenho mais por hábito gozar com as coisas do que contemplá-las com a nostalgia que ela merecem, mas ao preparar este artigo dei por mim a fazer justamente isso. É verdade que os preços estão mais caros, há menos carreiras, despediu-se mais pessoal, mas também é verdade que antigamente demorava quase duas horas em transportes de casa para o trabalho e hoje em dia demoro metade do tempo. Não digo que concordo com o aumento do preço dos títulos de transporte – principalmente quando estes antecedem uma renovação de frota da administração – mas reconheço o avanço que se fez nos últimos anos.
A travessia tornou-se mais rápida com a chegada dos catamarans, todavia persiste um problema que já acontecia com os barcos antigos e que tem que ver com os nomes. Os nomes dos catamarans, embora prestem homenagem a pessoas ilustres da Cultura e da História Portuguesa, geram mais equívocos e embaraços do que louvores. Comentários como “Eu no Torga gosto é de ir atrás.”, e piores, não dignificam em nada o autor de Contos da Montanha.
Este problema com os nomes acontecia também, como já disse, nos barcos antigos, embora fosse num nível completamente diferente. Os barcos que partiam do Barreiro iam todos para Lisboa. No entanto, não era isso que as placas indicavam. Um barco indicava como destino “São Jorge” nos Açores, outro, mais vago, “Trás-os-Montes”, mas havia mais. E isto iludia as pessoas. Pelo menos a mim iludia. Quando eu quando apanhava um barco que tinha como destino o “Algarve” era porque eu queria ir para o Algarve e não para Lisboa! Trezentos paus para ir do Barreiro para o Algarve? Era logo!
O único que ainda escapava era o “Martim Moniz”. Não parava mesmo lá, mas era o que ficava mais perto. Fazia-me confusão eu ser o único a queixar-me disto. Entretanto, fiz a operação e tudo passou a fazer sentido. 
Voltando aos catamarans, para mim são como uma casa de banho gigante; no sentido em que, cada vez que lá vou, venho sempre com uma ideia ou uma observação. A mais recente foi um aviso que li há tempos sobre manter as crianças sob vigilância. O aviso já era antigo, já o havia lido antes, mas só nesta última leitura é que eu percebi o real significado contido naquelas palavras.
O aviso pede para manter as crianças sob vigilância. Eis o que eu não percebo em relação aos raptos nos barcos. Caso alguém tenha uma falha mental elevada ao ponto de querer levar uma dessas avante, onde é que guarda os putos? A não ser que seja alguém da tripulação, o único sítio que eu vejo para alguém guardar um puto é debaixo do banco. Onde guardam os coletes de salvação. Só que não cabem lá dentro as duas coisas. Eu sei porque já experimentei com um amigo meu que é anão – eu não gosto de falar sem saber – e aquilo é apertado. Ou seja, para enfiar o puto lá dentro, o raptor é obrigado a vestir o colete de salvação. E aquilo chama a atenção.
Manter as crianças sob vigilância. Para quê? Já viram os putos que andam nos barcos? Quem é que vai querer um puto daqueles a moer o juízo? Só dá vontade de os atirar pela janela.
Eh pá! Não sejas assim. São só crianças!”
E a culpa é de quem? Minha? Já com os bebés é a mesma coisa. Até quando é que temos de aguentar? Quando estamos num sítio público, tipo consultório, e está um bebé a chorar, ninguém é capaz de dizer nada! Ninguém! Quanto muito é para atirar palpites.
Se calhar 'tá sujo.”
Isso é mas é fome.”
Ou então sono.”
E eu pergunto: e vontade de chatear, não?
Ninguém acredita que um bebé possa fazer birra só para moer o juízo aos pais e a toda a gente à sua volta. É preciso ser-se mesmo estúpido. O Pavlov ensinou-nos isso. Estímulo-reflexo. E o bebé não é parvo. O bebé sabe que basta fazer um minuto de choradeira para lhe darem de comer, mudarem a roupa, embalarem-no e etc. É o sonho de qualquer homem. Fazer um choradinho e espetarem-lhe uma mama na boca. Alguns bem tentam, mas tudo o que conseguem é ficarem com ar deprimente.
Alguém tem de ensinar uma lição a esses bebés que choram sem razão. Mas calma! Também não sou adepto da violência excessiva. Acho que esfregar-lhe a cabeça em carne crua e pô-lo a brincar com um rotweiller dos pequeninos chega. Aí, ele pode chorar, mas já se sabe porquê e não é preciso dar palpites.

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